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Um pé na cama, outro no chão

06.11.14

Vale a pena correr riscos por amor? Claro que sim.

Aqueles que crescem num mundo protegido acreditam que têm todo controlado. Nada é menos verdade. A margem de imprevisibilidade é muito maior do que gostamos de imaginar: na verdade, nunca sabemos o que nos espera. Gosto usar a imagem de nos cair um piano na cabeça porque ela é mais verosímil do que parece.

Depois do primeiro grande crash da bolsa em Nova Iorque em 1919, centenas de investidores falidos suicidavam-se atirando-se de arranha-céus, o que provocou a morte de vários transeuntes. Ou seja, o medo que aterrorizava Abracourcix, o chefe da aldeia gaulesa da famosa dupla Astérix e Obélix da banda desenhada de Sempé e Goschiny tinha a sua razão de ser. Ele temia que o céu lhe caísse em cima da cabeça, embora rematasse com optimismo, mas amanhã não será a véspera desse dia.

Correr riscos faz parte da vida, por isso mais vale arriscar do que ficar parado à espera que a vida decida as coisas por nós. Até porque quando a vide decide por nós, raramente decide em nosso favor. A realidade muda devagar, mas muda: podemos passar meses ou anos dispostos a tudo para que uma relação funcione, até o dia em que nos fartamos ou nos apaixonamos por outra pessoa.

Acredito que as pessoas apaixonadas correm menos riscos, por se sentirem mais fortes e por isso se comportarem de forma mais confiante. Confiança gera confiança, segurança gera segurança, estabilidade gera estabilidade. Se esperarmos sempre o melhor do outro e lhe dissermos isso mesmo, ele tenderá a dar-nos o seu melhor. Se, pelo contrário, o estivermos sempre a desvalorizar, mostrando-lhe que não acreditamos nele, estamos a minar um campo que queremos cultivar. Nem sequer se trata de dar ao outro o benefício da dúvida, porque quando estamos apaixonados, a dúvida não existe. Trata-se de o ver com bons olhos e acreditar que tudo é possível.

Acredito em padrões de comportamento, mas não acredito em regras para o amor. Um solteirão inveterado pode encantar-se com a rotina de casal, da mesma maneira que um sedutor profissional pode apaixonar-se e concentrar-se numa só mulher. É difícil, mas não impossível. Já assisti de camarote à capitulação de uns quantos e, acredite-se ou não, são muito mais felizes. Em todos os casos, eles fizeram essa escolha de forma consciente: queriam mudar. E mudaram.

As mudanças dão muito trabalho, demoram muito tempo e quase nunca são lineares. Ninguém se apaixona em três minutos, nem conhece o outro em menos de dois anos. Mas é possível apostar numa relação com os pés no chão e a cabeça no lugar, desde que se conheça os riscos envolvidos.

O truque é nunca entrar a pés juntos, não sonhar com o impossível, manter um pé na cama ou no chão, por mais feliz e segura que uma pessoa se sinta. O mais importante é ouvir o coração do outro e perceber como bate por nós: se bate tanto na presença como na ausência, se nos dá sinais que nos ama e que quer ficar ao nosso lado.

Quem ama, protege, quem ama, cuida, quem ama tem tempo para nós. Quem nos ama, quer-nos bem, acima de tudo. Por isso é preciso dar tempo e espaço ao amor, regá-lo todos os dias a optimismo e boa vontade, apimentá-lo com mimos e confiar na vida, sem nunca perder o pé, nem subir demasiado alto, sob o risco de cair como um piano sem governo nem salvação possíveis.

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