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Tirinhos e Farturas

06.11.14

Para o Cascão

 

Tens o olhar maroto dos crianças que o mundo poupou ao crescimento, tens o tamanho certo dos abraços para me receber quando estou cansada do mundo, tens o riso cheio de luz que me vai guiando nos dias de tristeza e a voz que diz a palavra certa no momento preciso.

Ou então não diz nada, mas o sorriso fala comigo e eu respondo-te e então damos a mão e vamos os dois à Feira Popular para esquecer entre tirinhos, farturas e voltas na Roda Gigante os teus e os meus desgostos, raparigas indecisas que povoam a tua imaginação, rapazes confusos que não sabem o que fazer com a minha determinação e a meias, como se de uma promessa se tratasse, esta vontade imensa de darmos amor, sem saber muitas vezes muito bem a quem.

As raparigas acham-te bonito e eu também, as raparigas acham-te divertido e eu também, algumas apaixonam-se por ti e de repente ficas com cara dos pai dos filhos que elas querem ter, outras não te levam a sério e como são sempre aquelas de quem tu gostavas de um dia ser o pai dos filhos delas, encolhes os ombros como se tivesse perdido meia dúzia de trocos a dar tiros a um alvo imaginário, enquanto o urso cor de rosa espreita do alto da prateleira, já sem esperança que apareça um pistoleiro implacável e leve o grande prémio para casa.

Mas sabes uma coisa? Enquanto tentamos e não acertamos, os ursos enchem-se de pó e passam de moda, no ano seguinte há outros bonecos mais giros e a vida, mesmo sem darmos por isso, vai-se encarregando de nos levar para outros lugares e nos mostrar coisas que nem sabíamos que existiam.

Se não fossem as tuas e as minhas tristezas, uma simples ida à Feira Popular numa segunda feira à tarde nunca teria o sabor da eternidade. Nunca fixarias a minha cara, perdida de riso em delírio de tristeza sublimada a cantar aos gritos ai como me duele el amor, às voltas sobre mim mesma num barco de borracha num lago verde com sessenta centímetros de altura, nem saboreavas as caretas concentradas do meu filho a curvar num carrinho de choque como se ele fosse teu, como se fosse filho de uma dessas raparigas que de vez em quando te roubam o coração.

Se não fosse a tua e a minha solidão tão desajeitadas quanto involuntárias, não saboreávamos com o mesmo prazer um sushi regado a saké frio, transformado em piadas as nossas desventuras, que te ajudam a esquecer as tuas loiras confusas e eu os meus rapazes indecisos.

A vida é feita de momentos e é a soma de momentos perfeitos que nos emprestam o sabor da eternidade e é por isso que a amizade e o mais belo dos sentimentos, porque é o amor sem crédito nem débito, porque nem pensamos antes de falar, porque sabemos que, digamos o que dissermos, o outro que és tu e que sou eu, vai perceber e aceitar tudo.

Por isso já sabes, sempre que me quiseres levar à Feira Popular para esquecer as tristezas e povoar as minhas noites solitárias de algodão doce, conta com o meu sorriso cúmplice e próximo e com o os meus abraços, que afinal são do tamanho dos teus, e tão grandes como o teu, ou o meu coração.

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