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Saudades e Caravelas

03.12.14

(Crónica da revista Flash)

 

A melhor coisa que pode acontecer a um escritor é apanhar uma boa frase no ar que traga uma boa ideia e nos dê pano para mangas. Às vezes uma boa frase dá oara escrever um livro de 300 páginas como Os Milagres Acontecem Devagar. Ou então para uma crónica, como contou o meu amigo e colega de prateleiras das livrarias Francisco Salgueiro quando um taxista lhe disse a  saudade é a presença da ausência. E o Francisco ficou a pensar se o profissional do volante também devia ser escritor.


Eu pensava que a saudade era a presença na ausência, mas esta semana dei por mim a matutar no sábio desabafo do taxista. O meu amor vive debaixo da minha pele todos os dias, adormecemos e acordamos juntos, falo com ele quando me apetece, sonho que estamos de férias junto ao mar e que temos uma vida cheia. O meu amor pode viajar e dar a volta ao mundo sem nunca deixar de viver ca dentro. Há uma parte dele que já ficou aqui , na minha cabeça, no meu coração e em todas as células do meu corpo.  O meu amor faz parte de mim. E escuto- lhe a voz mesmo sem o ouvir sussurra-me ao ouvido e apanho no ar o seu perfume mesmo que viaje para outro continente. As saudades são isto, viver o outro ca dentro, como se já se vivesse dissolvido no nosso sangue. Não é uma utopia. É uma percepção da realidade tão legítima quanto pode ser outra qualquer.


Quando as caravelas chegaram ao novo mundo os nativos, estarrecidos e perplexos na praia, não conseguiam percepcionar aqueles enormes volumes de madeira  e panos hasteados que flutuavam sobre as águas como deuses gigantes. A sua percepção não lhe permitia captar corpos tão estranhos. É a percepção que molda a realidade e não o contrário. O meu amor que vive ca dentro faz com que a minha percepção dele seja próxima, quente e reconfortante. Está tudo na minha cabeça mas como não posso sair dela, é essa a percepção que conta porque é a minha.  É claro que posso ausentar me de mim própria e subir ao camarote e olhar-me à distância. Nesse caso, talvez me veja só, seguida por duas sombras. Mas não há nada mais triste do estarmos longe de nós mesmos, tal como não há nada mais difícil do que fingir algo que não somos ou ignorar o que sentimos.

O meu amor vive comigo. mesmo quando não está por perto oiço lê a respiração profunda enquanto dorme, o bater tranquilo do seu coração quando me abraça e o sintos as suas mãos na minha cintura mesmo quando demora em visitar-me. O lugar que ocupa no meu coração é dele e por isso, absolutamente pessoalmente e totalmente intransmissível. Não tenho a certeza se escolhi ou se aconteceu contra a minha vontade, mas é está a minha verdade, ou percepção da realidade e não tenho outra. A saudade é um sentimento vivo e inquietante que aprendemos a domar com calma, paciência e sobretudo resiliência, tanto connosco como para com o outro.

Quando uma mulher escolhe um homem e ambos se apaixonam, pouco ou nada a fazer. O tempo resolve o
Impossível e as saudades alimentam esse tempo de espera, um compasso desordenado e desigual que nos faz pensar que às vezes somos donos do mundo ou que já o perdemos. Quando os europeus chegaram ao novo mundo, os nativos viram no homem branco um ser estranho e diferente. A confusão é o início de uma nova realidade, o caos precede a ordem, o medo antecede a mudança. Mas um dia tudo muda. Quando o muro de Berlim caíu o mundo já estava à espera.
As saudades são isto: não importa o tempo ou o espaço, porque vivem dentro de nós, como o amor que sentimos.

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