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Primeiros Prazeres

06.11.14

“ A suicídio não é querer morrer, é querer desaparecer”

George Perros

  

Nunca lhe disse que era gay. Nunca lhe disse porque nunca consegui olhar-me no espelho e dizer à imagem que ele reflecte:

- Tu és gay.

Apesar do espelho mostrar o homem que sou eu. E é isso que eu vejo, um homem.

Nada no meu aspecto físico, atitude, modos ou trejeitos denuncia a minha ambivalência sexual. Não tenho ataques de nervos, não vivo obcecado com a minha mãe ou com o estado de limpeza e conservação das minhas unhas, não passo férias em Ibiza, não me sento para mijar, não gosto do Sexo e a Cidade, odeio a Gloria Gaynor e nunca fui a um bar da classe. Quando me cruzo com eles no Chiado organizados em bandos compactos, são como os pombos da Praça do Camões, tontos e interesseiros, barulhentos e feios, de papo cheio e cabeça vazia. Odeio bichas, detesto paneleiros, os homens com cabelos de mulher ou caras de menina enervam-me. Mas gosto de homens porque gosto de mim. E gosto do que vejo ao espelho.

Ela também gosta de mulheres. É, tal como eu, um dos manequins mais requisitados da agência. Juntos podíamos ir até ao fim do mundo sem nunca nos cansarmos e sem cheirar uma linha de coca. Ela é tudo muito: muito alta, muito magra, com uma boca imensa e uns olhos gigantes, o cabelo é infinito, tal como o pescoço, as mãos, os dedos das mãos e os pés. Calça 42. Isso mesmo. Se não calçasse 44 nunca teria tido tomates para me meter com ela. Um tipo não pode calçar o mesmo que a namorada. Pode ser da mesma altura ou até mais baixo, quando ela se veste para uma festa e se pendura nuns saltos agulha que lhe alongam as pernas, mas calçar o mesmo número é que não.

A Marta calça 42 e veste 36. Tinha um corpo perfeito até a booker da agência que já foi manequim até o marido lhe desfazer a cara num desastre de carro lhe meter na cabeça que devia pôr silicone porque podia fazer mais publicidade. E a Marta operou-se para trocar as passerelles por anúncios de telemóveis e refrigerantes. Esteve três dias a gemer, duas semanas de molho e agora só usa tops, decotes e vestidos sem alças para exibir a mercadoria. É raro uma cabeça não se virar à sua passagem, mesmo quando vai ao meu lado. É uma bomba e eu sei que me apaixonei pela sua beleza e não por ela, mas como para as mulheres é a mesma coisa, nunca me dei ao trabalho de lhe explicar. Não é que ela não percebesse; a Marta está no último ano de Psicologia, tem um curso de Macrobiótica, faz Reiki e tem uma intuição especial para o Feng Shui. Lê dois jornais diários e o Expresso à sexta-feira, gosta dos documentários do Canal 2 e sabe dizer quantos conflitos armados existem actualmente no planeta por falta de água e onde ocorrem os mais graves.

Tem uma tatuagem na parte de dentro do tornozelo, um hieróglifo do tempo da Cleópatra que ela diz que quer dizer o espírito divino está no corpo. Não acredito, nunca acreditei, mas se ela insiste na mística profunda da sabedoria milenar para se escudar numa imagem que ela julga ser interessante para os outros, quem sou eu para lhe contrariar a vontade?

Já dormi com quase todas as miúdas da agência e com mais de metade das que trabalham para a concorrência. Encontramo-nos nos castings, nos desfiles, nas festas, nos concertos de verão, na rua, na agência. Elas tropeçam nos meus pés, eu agarro-as com os olhos e o meu sorriso que já vendeu carros, lâminas de barbear, cartões de crédito, móveis, férias, seguros, ténis e condomínios fechados prende-as como uma fita de seda e elas deixam-se ir, como se deixam todas as mulheres quando um tipo lhes apanha a chave entre o corpo e o coração.

Mas a Marta é diferente. Nunca tive de a seduzir porque foi ela que se meteu comigo. Agarrou-me o pulso direito numa festa de entrega de prémios e sem dizer uma palavra meteu-me no Smart e levou-me para casa. No dia seguinte desapareceu durante uma semana para eu perceber que nunca teria poder sobre ela. Depois reapareceu como se nada fosse, com o Expresso debaixo do braço e desde então passámos a ir ao cinema, ás compras e a dormir juntos quatro ou cinco noites por semana. Com a Marta é diferente porque sei que ela nunca se vai apaixonar por mim. Nunca me vai fazer perguntas chatas nem exigir horas certas para nada. Não vai falar em férias na praia da infância dela, baptizados de sobrinhos ou aniversários de casados dos pais. Nunca vou conhecer ninguém da família dela porque a Marta é uma animal selvagem e já se deve ter esquecido do nome dos pais. Só lhe conheço as amigas com quem ela gosta de dormir, de vez em quando diz ela, quando a carne pede mais carinho do que força e a pele precisa de mais calor do que peso.

Há noites de sorte em que trazemos uma miúda para casa e quando isso acontece é sempre ela que as traz como quem foi apanhar um cesto de fruta ao pomar, aparece-me com um sorriso triunfante e um brinquedo debaixo do braço, gosta delas mais baixas, diz ela, para lhes ver os olhos a revirar quando as começa a encher de beijos enquanto as mãos que nunca mais acabam exploram com artes de cirurgia um novo corpo, cheio de mistérios e segredos.

Nunca lhe disse que também gostava de fazer isso aos homens, de os dominar como a vejo dominar as miúdas porque não tenho a certeza que ele me compreendesse. Não sou gay, gosto de brincar com os corpos dos outros. Quando era criança nunca me interessei por carrinhos, comboios ou outros seres inanimados, deve ser daí que vem o fascínio por corpos masculinos, estátuas de David que existem nos ginásios, nos clubes desportivos de bairro, nas associações recreativas onde o boxe é uma religião.

Nunca lhe disse que antes de ter dormido com mulheres gostava de me deitar com homens, que foi com eles que descobri os primeiros prazeres e o primeiro prazer é como o primeiro cheiro, uma pessoa acha que não foi nada de especial e depois não pára de pensar no momento em que o vai repetir. E como todos os prazeres, a repetição nunca é igual, mas uma declinação do que se viveu, uma sombra do que já foi, ás vezes mais forte, cada vez mais forte até se tornar muito mais forte do que nós.

Tenho casos com outros manequins da agência, mas só com os que são como eu, que vivem com a namorada ou têm fama de machos porque não aguento bichas nem senhoras com uma pila entre as pernas.

Há duas noites sonhei que a Marta descobria a minha vida secreta, entrava em casa um dia mais cedo do que era previsto – ela passa a vida a ir para Alemanha fazer catálogos de vendas por correio – e me encontrava com o Paulo na cama. No meu sonho ela escorregava para debaixo dos lençóis pretos e brincava com os dois, pedia a cada um de nós que a comesse e ria-se muito, mas foi só um sonho, porque se isso me acontecer, a Marta desaparece da minha vida para sempre só para me fazer sentir que nunca terei nenhum domínio sobre ela. Ela ensinou-me sem que eu tivesse querido aprender que o medo de perder aqueles que amamos faz com que o nosso amor por eles cresça como uma bola de neve que rebenta com a nossa vida no dia em que já não conseguir descer mais a montanha. E depois vou chorar com saudades da Marta, vou ter pena de nunca ter ido à praia da infância dela, de nunca ter conhecido os sobrinhos ou decorado o nome dos pais.

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