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PORTUGAL COM SABOR TROPICAL NA PONTA DA LÍNGUA

13.05.15

 

rio de janeiro desenho.jpg

 

SE NAO SABE O QUE É UM FICANTE, UM CARA LESADO, UM FUZUÊ NEM O QUE QUER DIZER TER UM OLHO NO PEIXE E OUTRO NO GATO, ENTÃO VENHA ATÉ AO RIO DE JANEIRO, CIDADE MARAVILHOSA

A língua portuguesa com sabor tropical é mesmo outra coisa. E o uso criativo que fazem dela é quase sempre uma delícia.

No Brasil, rei e senhor dos neologismos, há expressões tão maravilhosas quanto a própria cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Por exemplo, esse cara é um 10 para as 6. Um cara 10 para as 6 é um homem mulato claro, que não chega a ser nem branco nem preto. Outro expressão óptima é ficar com alguém, por distinção a namorar, que em português de Portugal é uma grau acima de andar com alguém. Arrisco a dizer que corresponde ao clássico nacional andar enrolado com, o que é diferente de andar, ou de namorar, embora andar seja um meio caminho entre andar enrolado e namorar.

Ficar com alguém é ficar de vez em quando, sem peso nem compromisso. O mais engraçado é que essa pessoa, com quem se ficou, ou se foi ficando por um tempo indeterminado, passa a ser um ficante para sempre. Esse não foi meu namorado, foi só um ficante. E o ficante ficou para sempre preso num lugar qualquer do qual nunca saíu porque em bom rigor, não ía conseguir ir a lado nenhum, quando as relações são para o que são a não andam nem para a frente nem para trás. Isto para aqueles que não se importam, porque quando as pessoas se chateiam, tal como nós, também dizem eu não me fiquei.

Os brasileiros são exímios em transmutar verbos para substantivos. Se alguém está a bater furiosamente à porta, então está arrumando uma bateção. Outras vezes, os verbos não reflexos são usados como tal: os meus amigos me cancelaram, que é como quem diz, cortaram-me do circuito deles. E riem muito quando usamos expressões como pintar a manta ou siga a marinha porque não fazem ideia do que estamos a falar, mas são eles os inventores de uma das minhas preferidas de sempre, a fila anda. A fila anda serve para imensas coisas na vida, nomeadamente para mudar de vida – e de parceiro – quando não rola, outra expressão à qual é impossível ficar indiferente, porque no Rio de Janeiro rola basicamente tudo, basta sair à rua e observar os cariocas no calçadão, ou dar um mergulho na praia de Ipanema ou do Leblon onde os turistas curiosos e os indígenas sarados metem conversa uns com os outros em ambiente de grande informalidade. Um cara sarado é alguém que tem o corpo malhado. O carioca tem o culto do corpo, tal como a vocação para ser feliz. Aliás, carioca que é carioca tem horror à tristeza e à melancolia. Prefere sempre ser festivo a ser neurótico, o que já de si é um bom princípio de vida. Mas como fumar maconha é tão normal como beber uma água de coco, é normal que as pessoas fiquem um pouco lesadas.

 

Ser um cara lesado não tem nada a ver com ter feito uma lesão no músculo de joelho depois de uma queda de bicicleta, a que os cariocas chama bike. Tem a ver com ser distraído, esquecer-se de combinações previamente feitas a que o brasileiro chama compromissos. E quanto a verbo topar, não é utilizado no sentido luso e perceber algo que não estava claro, o clássico, já topei a jogada. Topar é concordar, vamos no Jobi hoje à noite, você topa ir com a gente? O Jobi é um dos botecos do Leblon onde todo o mundo se cruza. Entenda-se por todo o mundo, a galera de amigos e de conhecidos. Uma galera tanto pode ser um grupo de pessoas como uma grande confusão, a que eles gostam de chamar um fuzuê.

E um cara chato é um puxa saco, que está rasgando a minha seda, ou puxando a minha sardinha, porque assim como acrescentam, também cortam, portanto caíu a brasa e ficou só o peixe. E quando estão desconfiados dizem tou com um olho no peixe e outro no gato. Enfim, o português do Brasil é infinitamente legal, expressão que quer dizer tudo de bom: divertido, cool e mais o que se quiser.

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