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Polícias e Ladrões

06.11.14

Como não acreditas nas minhas palavras, tiras-me a vontade de escrever. Claro que não te posso dizer isto assim, porque não acreditas nem aceitas o que te digo nem a forma como te digo.       É claro que não tens culpa, ou a culpa não é tua, porque a escritora sou eu e se as minhas fontes secam ou as minhas musas perdem o encanto, o problema é meu.

O que tu não percebes é que o problema é sempre meu, quer eu escreva quer não, porque tu não acreditas nas minhas palavras e não acreditas nelas porque sou uma escritora. Irónico, não achas?

Se fosse mediadora de seguros e só usasse as frases para assinar contratos, todas as palavras de amor que te enviasse eram aceites como verdadeiras, porque não era esse o meu ofício.

Mas Deus deu-me este dom de transformar as palavras em histórias que correm no sangue dos outros como verdadeiras e este dom de dar vida às palavras vira-se agora contra mim. Só te falta citares uma frase de um filme americano em que um personagem depois de ter sido acusado de mentir, riposta num tiro certeiro:

  • Eu não sou mentiroso, sou apenas um bom ficcionista.

E eu percebo-o porque a resposta, que tem tanto de verdadeiro como de cínico, é a única possível. O escritor pinta o mundo com as suas cores e disso retira as histórias. O escritor vive das palavras e para elas, perde-se no meio dos seus enredos e personagens, habita num mundo só dele e quando chega o final do dia e tem que regressar ao mundo real, doem-lhe os olhos, por ter sonhado tanto no seu mundo e por não o deixarem sonhar no mundo de cá.

Por isso, quando te escrevo palavras de amor e tu sentes que as roubei a outros sonhos e existências e te tornas polícia do que sinto, fazes-me sentir um ladrão que é preso sem ter sido apanhado a roubar.

Todos nós já usámos as mesmas palavras com pessoas diferentes, às vezes convencidos que estamos, pela primeira vez na vida a sentir o que nunca sentimos, para mais tarde descobrirmos que afinal estávamos enganados. Como quando pensamos que amamos alguém para sempre e um dia esse amor morre. Como quando alguém nos morre e pensamos que nunca mais vamos recuperar e um dia, uma rajada de vento fresco na cara, resgata-nos a alegria e nos esquecemos da dor.

Mas as palavras que não te escrevo – e que às vezes não te digo – ficam entaladas na garganta, porque são para ti e por isso são tuas e não me servem de nada se não as escrever, se não te as entregar, com a minha voz ou a minha escrita. Mas para isso tens que deixar de brincar aos polícias e ladrões comigo, tens que me ouvir com o coração aberto e esquecer que sou uma escritora e as uso no meu ofício. E tens que te lembrar que antes e depois da escrita, está tu. E eu. Num mundo só nosso, onde não há polícias nem ladrões.

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