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Outra história da raposa e do principezinho

06.11.14

Para o Duarte

A raposa olhou para aquele rapaz bonito e com um ar frágil e percebeu imediatamente que era um Príncipe. Em volta, não havia ninguém, apenas a cor dourada do trigo e o céu azul lá em cima, numa abóbada muito suave, a perder de vista. O Príncipe não tinha vindo de carro nem desembarcado de nenhuma nave espacial, por isso a raposa achou que ele tinha caído do céu, e depois riu-se para dentro, como quem descobre um defeito um bocado parvo na sua própria personalidade, porque nada cai do céu, tudo o que se consegue na vida custa muito a ganhar e é infinitamente mais fácil perder tudo do que manter o mais importante.

Mas, por outro lado, mesmo que tivesse caído do céu, se aquele rapaz tão bonito lhe tinha aparecido no caminho, alguma função iria ter na sua vida solitária e errante, sempre à procura de um abrigo que lhe servisse de casa, de um amigo que pudesse amar, de uma outra vida vivida em partilha, que já tinha lido em romances e visto em filmes, mas que nunca conhecera.

Como era muito curiosa e simpática, meteu conversa com ele.

- Quem és tu?

- Sou um Príncipe que quer conhecer o mundo. E tu?

- Sou uma raposa solitária e viajada que está farta de correr o mundo e quer encontrar uma casa.

- Isso deve ser aborrecido – respondeu o Príncipe.

- O quê? Ser solitária ou estar farta?

- Estar farta. Eu sempre fui um solitário e preciso da solidão para entender o mundo. E viajar é tão bom, como te podes ter cansado?

- É da idade – respondeu a raposa. E, com um suspiro, deitou-se e colocou graciosamente o focinho bicudo e brilhante entre as patas da frente, como quem passa muito tempo a pensar.

- Mas tu pareces tão nova! – estranhou o Príncipe.

- É da alimentação – respondeu a predadora – só como carne fresca. E dos tratamentos de pele.

- Eu acho-te muito bonita – arriscou o Príncipe, com um sorriso muito tímido.

- Obrigada. Eu também te acho muito belo. Um bocadinho triste, talvez.

Ficaram os dois a olhar um para o outro, partilhando um silêncio tranquilo e cheio de ideias, como só acontece entre velhos amigos. E eles já eram velhos amigos.

- Onde está a tua família? A tua mãe, o teu pai e os teus irmãos?

- Os mais pais são de outro planeta e não tenho irmãos.

- Oh!... – exclamou a raposa, desapontada - então não sabes brincar, nem discutir, nem partilhar brinquedos…

- Mas também não me importo. Como tenho um planeta para cuidar, tive que crescer muito depressa e prefiro pensar e conhecer, em vez de brincar e partilhar.

- Eu tive sete irmãos – contou a raposa, orgulhosa – por isso cresci a brincar.

Levantou o focinho, depois as patas dianteiras, depois o torso, e ficou sentada, muito direita, a olhar fixamente para os olhos do Príncipe. Já estava apaixonada por ele e queria prender-lhe o olhar para sempre, porque sabia que o ia perder e queria guardar o melhor dele. Mas os olhos dele eram difíceis de agarrar, porque as imagens lá dentro estavam sempre a mudar e a raposa percebeu que ele estava perdido e não sabia o que queria.

- Queres fazer um jogo comigo? – perguntou, com um sorriso matreiro.

- Não sei se consigo – respondeu o rapazinho, agarrando nervosamente as pontas do cachecol.

- É muito fácil. Eu faço-te uma pergunta e tu respondes. E como é tudo a brincar, podes responder o que quiseres. Gostavas de ser uma raposa?

- Não

- Porquê?

- Porque não podia mandar em ninguém.

- Assim não jogo – disse a raposa, subitamente entristecida – tu só sabes falar a sério.

- Não é verdade – respondeu o rapazinho – eu só sei é dizer a verdade e quase ninguém aguenta a verdade o tempo todo. Por isso e que ando sozinho.

A raposa baixou outra vez o torso e voltou a encaixar o focinho por entre as patas. Tinha que pensar muito bem no que ia dizer a seguir, porque, como estava apaixonada, ardia ao mesmo tempo de medo e de vontade e queria fazer as coisas o melhor possível.

- Eu acho que tu podias escolher ser feliz.

- Mas eu sou feliz - respondeu o Príncipe. Eu amo o conhecimento e vivo de acordo com a minha paixão; viajar, correr o mundo, conhecer seres maravilhosos, como tu… - e, dizendo isto, sentou-se ao lado da raposa e pousou a sua mão branca e lisa no lombo dela. A raposa estremeceu das patas à cabeça. Queria guardar para sempre aquele toque, o calor da mão dele a inundá-la por dentro. Queria tornar-se numa animal doméstico devoto ao seu dono. Queria mudar de vida e alcançar a outra, a sonhada e desejada, depois de tantos livros e filmes. Mas ele também tinha que querer o mesmo que ela, ou corriam o risco de ficar apenas os melhores amigos.

Então a raposa pensou, pensou e decidiu ficar calada. Tudo o que dissesse dali para a frente ia estragar o seu sonho, o momento perfeito que lhe tinha caído do céu. Sabia que queria que aquele momento se eternizasse, por isso fechou os olhos.

Tudo tem um princípio e tudo tem um fim, pensou. Mas não vou pensar no que não está nas minhas mãos. E, sem falar, enroscou-se a ele, como se fosse para sempre.

 

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