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Os Efeitos Secundários da Paixão

10.11.14

 

Não há nada melhor do que estar apaixonado. Nem pior.

Há quem fique com alergias de pele, dores de barriga, insónias, suores frios, fraqueza nas pernas, falta de apetite. Há quem se sinta paralisado de medo e passe meses em negação a dizer a si mesmo e ao outro, não, eu não estou apaixonado, não sou dado a estas coisas, isto passa, como se fosse uma constipação. E depois percebe que a constipação dura há 5 meses e que não há doses diários de vitamina C que resolvam o problema, porque estar apaixonado pode ser mesmo um grande problema.

Há quem saia todas as quintas, sextas e sábados em busca de outras caras e de outras vozes que façam esquecer a única que vemos e ouvimos durante a maior parte das 18 horas que estamos acordados e grande parte dos restantes que tentamos dormir. Os mais incautos arriscam a trazer para casa alguém completamente diferente par ver se pega, mas não pega, e dez minutos depois o outro já está a ser empurrado porta fora porque não pertence à nossa casa, à nossa vida e nunca mais o queremos ver.

Fazem isto os mais aventureiros, os mais kamikaze ou os mais novos, que ainda acreditam que as coisas podem mesmo mudar de um dia para o outro. Nunca mudam. Mudam um dia, quando menos esperamos, quase nunca quando mais desejamos.

Com o tempo uma pessoa aprende a mastigar a paixão com serenidade, a esperar que o tempo dite se vai ou não transformar-se numa história de amor, se a vida vai ou não dar-nos uma oportunidade. Nem sempre depende de nós. Nem sempre depende do outro. Às vezes depende dos dois, mas um quer muito e outro não sabe. Ou nenhum consegue dar o primeiro passo. Ou o outro pede-nos tempo e não sentimos que já não temos energia para lhe dar o tempo que ele precisa.

Ou então ficamos com medo porque o outro que estava ali todos os dias deixou de estar e é como se tudo o que vivemos nunca tivesse existido. Há quem devore uma embalagem de gelado de Pralinés & Cream às colheradas de sopa, há quem veja episódios repetidos da Anatomia de Grey ou do Scandal durante um fim-de-semana sem se levantar do sofá, há quem se vingue no ginásio e faça três aulas seguidas, há quem se refugie no trabalho e saia do escritório no último minuto possível.

Quando estamos apaixonados ficamos insuportáveis para o mundo, mas sobretudo para nós próprios. Queremos e não queremos sentir as borboletas na barriga, queremos e não queremos receber uma mensagem de bom dia ou de boa noite, queremos e não queremos acreditar que vai correr tudo bem, porque se por acaso não der certo, nem queremos pensar como nos vamos sentir a seguir.

Acima de tudo queremos acreditar que somos fortes e que o amor não nos mata, mas sabemos que mói, que cansa, que entristece, que enfraquece, que chateia quando não temos o que queremos. É muito risco para tão poucas certezas. E muitos sonhos a entupir a realidade. E muito desejo que fica por cumprir, porque quando estamos apaixonados queremos tudo aqui e agora e o outro nem sempre pode, nem sempre quer, nem sempre consegue. O outro, que também foi apanhado na curva, tem a vida dele, os problemas dele, os fantasmas dele para resolver. Mesmo que nos ame profundamente, nem sempre consegue amar-nos quando e como queremos.

Estar apaixonado não é uma escolha, é uma espécie de fatalidade. Não escolhemos quem se senta ao nosso lado no avião ou que carro se cruza com o nosso na estrada. Não escolhemos o dia em que nascemos nem o dia em que morremos. Não escolhemos os pais nem os filhos. As coisas mais importantes na vida nunca são escolhidas por nós.

Por isso o melhor é aceitar e aprender a viver com elas. E estar apaixonado, por mais trabalho que dê, é sempre melhor do marinar numa existência morna, com ou sem companhia. A companhia está dentro do peito, dentro de nós, é como uma semente: uma vez plantada, vai crescendo silenciosamente e quando damos por ela já tem o tamanho de uma árvore e é preciso uma escavadora para a arrancar.

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