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Línguas de Gato

06.11.14

Acordou sobressaltada, com o cabelo em desalinho e o corpo ainda a escaldar. Os primeiros raios de sol anunciavam-se timidamente pelas frestas da persiana. Olhou à sua volta. O quarto estava virado de pernas. À entrada, as sandálias dela e os ténis dele. Junto à cadeira, a saia vermelha que vestira naquela noite, o top branco que teimara em pôr sem soutien apesar do peito já farto e já um pouco descaído e as calças dele, tudo enrodilhado como um novelo gigante. Mesmo ao lado da cama, as suas cuecas encarnadas de renda e os slipes pretos dele. Lembrou-se de quando o viu despido lhe agradaram os slipes, pretos e justos à pele, pondo em evidência o seu sexo já visivelmente excitado... Suspirou e olhou parta ele. Estava a dormir profundamente, com os braços debaixo da almofada e o cabelo despenteado sobre a testa.

  • Ainda é tão novo - pensou.

Nem sequer se lembrara de lhe perguntar a idade. Tinha medo da resposta. Ela, que já passara há alguns anos os 40, sentia-se um pouco cheia e cansada. Em nova, era uma beleza espampanante, um género de Amália, bem nutrida de peito e ancas, com o cabelo negro e a boca da grande fadista. Por ironia do destino a mãe chamar-lhe Amélia, por ser este o nome da sua avó, mas à medida que crescia e se lhe notavam mais parecenças com a cantora, passou a pedir toda a gente que lhe chamasse Amália. Comprava os figurinos e as revistas onde apareciam fotografias da outra, a verdadeira e imitava-lhe as roupas e os penteados. Quando apareceu a televisão, escapulia-se para o café onde havia o único televisor do bairro para ver a sua heroína. E quando via a fadista no pequeno écran imaginava-se também ela de xaile preto a cantar Que destino ó maldição, manda em nós meu coração, um do outro assim perdidos...

Era tão lindo aquele fado sobre o amor desencontrado, até dava vontade de chorar. Amélia tinha um coração de manteiga e era de lágrima fácil. Não podia ver um cão abandonado, um mendigo sem amparo, uma criança a chorar, vinham-lhe logo as lágrimas aos olhos. Os rapazes do bairro onde crescera, todos a cobiçavam. Américo, o filho do padeiro, Pedro, o filho do droguista e até o Sr. Antero, um viúvo de 50 anos que geria uma taberna próspera e sempre cheia. Mas Amélia sonhava com o mundo do espectáculo. Pensava que se era tão parecida com a grande estrela do fado, quem sabe, um dia, não poderia fazer também ela carreira artística e tornar-se uma vedeta?

Um dia, encheu-se de coragem e foi ao Parque Mayer tentar a sua sorte. Entrou pelas traseiras do teatro onde estavam a fazer audições para uma nova revista intitulada “As Louras da República”. Amélia não era loura e por isso foi assobiada assim que pisou o palco de Bariedades. Mas o encenador viu imediatamente nela a parecença com a cantora e perguntou-lhe se sabia cantar. Amélia afinou a garganta, abriu a boca e cantou uma quadra de um fado, mas o encenador fez-lhe sinal com a mão e pediu-lhe que esperasse até ao fim das audições.

Amélia esperou duas horas, sentada num banco de pau ao fundo do corredor, enrolada no seu xaile preto. Retocou o batom com a ajuda de um pequeno espelho e pensou que a sua hora estava a chegar. Algum tempo depois, o encenador apareceu.

  • Chamo-me Américo Gentil – disse, enquanto lhe estendia a mão – como se chama esta beldade que tanto lembra a nossa querida Amália? – perguntou
  • Amélia – respondeu a rapariga com as faces ruborizadas- Amélia da Silva Peixoto- concluiu
  • E que idade tem a Amélia?
  • Vinte e um, acabadinhos de fazer, senhor Américo
  • Não me chames senhor, rapariga, lá porque tenho idade para ser teu pai, olha que não te vejo como minha filha! Anda, vem jantar comigo, eu levo-te aos fados e a comer uma açorda de marisco, para ver se engordas um bocado, que estás uma trinca-espinhas.

Essa noite mudou a vida de Amélia. Ele levou-a a um restaurante muito fino onde a Amália cantava, Amélia ficou tão impressionada que pediu á fadista um autógrafo que guardou no soutien. Ele deu-lhe a beber vinho engarrafado doce e suave, como ela nunca provara, empanturrou-a de doces e rebuçados e quando acordou no dia seguinte já era uma mulher. Tinha perdido a virgindade e a inocência e tinha ganho um amante.

Américo foi-lhe prometendo grandes papéis na revista, enquanto lhe dava pequenas participações. Ela fazia sempre de figurante, quase nunca falava, mas sentia-se feliz. Ele arranjou-lhe um apartamento acanhado numas águas furtadas no Bairro Alto, comprou-lhe algumas mobílias de estilo e os bibelots de que ela gostava e visitava-a quase todas as tardes. Bebia muito e às vezes ficava com mau vinho. Batia-lhe, chamava-lhe nomes e dizia que a ia deixar, mas um ou dois dias depois, voltava com uma flores, uns bom-bons ou trezentas gramas de línguas de gato compradas na Bénard e faziam as pazes.

Amélia estava presa a tudo aquilo. Os pais cortaram relações com ela depois dela Ter saído de casa, chamam-na perdida e não a queriam ver. Amélia agora não tinha família. O Américo era a sua família. Um ano depois de viver com ele deu à luz uma menina, a quem chamou Amália. Américo não a quis perfilhar, mas ela criou a menina com todo o amor e para que nada lhe faltasse, começou a fazer rissóis e croquetes para a taberna do Sr. Antero, que lhe ia buscar as encomendas às escondidas do Américo e lhe deixava o dinheiro debaixo do tapete da porta de casa.

A menina cresceu, foi para a escola, depois para o liceu e Amélia começou a ver na filha a cara e o corpo que um dia tivera e que de tanto se orgulhava. Estava cansada, tinha as pernas gordas e o cabelo já ganhava alguns brancos. A filha, por seu lado, tinha tanto de bonita por fora como de feia por dentro. Herdara o mau carácter do pai e estava sempre a criticar a mãe. Chamava-lhe nomes e não lhe perdoava o facto de nunca se ter casado com o pai dela. No dia em que este morreu, Amélia recebeu a visita de um senhor de bigode que lhe disse que Américo era casado e por isso lhe deixara vinte contos por caridade, já que nada do que ele tinha lhe pertencia por direito.

  • E então a minha filha? Não é filha dele? - protestou a pobre mulher.

O homem de bigode e ar grave que era o advogado de Américo explicou-lhe que ele nunca reconhecera a filha e que até insinuara por diversas vezes que a menina nem fosse sangue do seu sangue.

Amélia chorou lágrimas amargas de tristeza e revolta. Nunca amara outro homem, sempre lhe fora fiel, apesar das propostas do Sr. Antero que, quando lhe deixava o envelope com o dinheiro dos rissóis debaixo da mesa, vinha sempre com um bilhetinho a insinuar que quando ela quisesse podia contar com ele como muito mais do que amigo. Qual quê! Amélia era fiel ao seu homem, viva para ele, aturara-lhe as tareias e o mau vinho e ele deixava-a assim desamparada e sem ter como sustentar a menina?

O advogado sossegou-a, deu-lhe uma pasta com papéis a provar que o andar estava em nome dela que por isso não tinha que pagar a renda.

  • Console-se que já vai com muita sorte. Há praí muita rapariga desgraçada por esses patifes que só querem o bem bom e depois nem uma chávena lhes deixam! Nem um pires, quanto mais uma chávena! Não chore mulher, que ele era um bom homem. Vinte contos e uma casita linda que aqui tem, o que é que quer mais?

Amélia não queria nada, coitada. Só queria se artista e cantar como a Amália quando era nova, mas agora era tarde, os sonhos esfumavam-se como nuvens no céu. Tinha trinta e sete anos e a filha quinze.

Amália quis descobrir quem era a família do pai. Foi à lista telefónica e encontrou uma morada na Avenida de Roma. Meteu-se no autocarro e foi lá ater à porta. Abriu-lha uma criada fardada que lhe perguntou quem era e o que queria. Amália ficou sem resposta e virou costas. Viu um par de enormes candelabros de prata em cima do aparador da entrada e um quadro antigo. O pai devia ter tido muito dinheiro, pensou, mas nada daquilo era para ela.

Semanas mais tarde, uma vizinha perguntou-lhe se queria ir trabalhar como ajudante de cozinha num restaurante português em Toronto e a rapariguinha abalou, deixando a mãe sozinha. Escrevei-lhe um postal no Natal e nunca lhe mandou dinheiro. Casou com um canadiano que a mãe nunca conheceu e teve dois meninos. Amélia ia sabendo das notícias pela vizinha e foi ficando cada vez mais só.

Um dia, deu-lhe na veneta voltar ao Parque Mayer para ver um revista. Os mais antigos reconheceram-na e convidaram-na para ir ter com eles aos camarins no fim do espectáculo.

Foi aí que o conheceu. De tronco nu, suado, depois de ter participado como dançarino no último quadro da revista. Era um rapaz bonito, de olhar doce e tímido que chegar há poucas semanas a Lisboa, fugido do Funchal onde o padrasto o forçava desde o dez anos a ter relações com ele. Dormia numa pensão, num quarto com quatro beliches onde dormiam mais três maricas que não paravam de o assediar.

Amélia encheu-se de pena do pobre rapaz. Afinal ainda tinha o sofá-cama na sala onde a sua filha dormia, antes de partir para o Canadá. O rapaz tinha um ar tão sofrido e triste... Amélia quis tomar conta dele. Convidou-a para viver lá em casa. O rapaz, agradecido, foi buscar os trapos à pensão e instalou-se. Era sossegado e como comia pouco, por isso dava pouca despesa. Ao fim do mês pagava-lhe dez contos pela dormida e ia de vez em quando às compras; ao talho, à mercearia, à pastelaria comprar-lhe as línguas de gato que ela tanto gostava.

No dia em que Amélia fez 42 anos, levou-a a jantar fora e ao cinema. Amélia vestiu o seu melhor vestido preto, tirou da caixa os sapatos de verniz que não calçava desde os tempos da juventude e pôs ao pescoço o fio de outro com uma medalha com a Nossa Senhora que era a única jóia que tinha, deixada pela sua avó.

O rapaz agradeceu-lhe tudo o que fizera por ele e nessa noite quis dormir na cama dela. Amélia a princípio repudiou a presença dele, mas quando o viu outra vez de tronco nu a garra-la com força. fechou os olhos e deixou-se ir naquele sonho absurdo e impossível. Ele penetrou-a uma, duas, três vezes, até se sentir saciado. Depois adormeceu ao lado dela e ela ficou ali, parada e perplexa a olhar para ele sem perceber muito bem o que lhe tinha acontecido.

Os vizinhos começaram a comentar. Agora os dois saíam de braço dado, iam ao cinema e à revista, ela comprou-lhe roupas caras com as suas economias e o rapaz convenceu-a a comprar um carrito em segunda mão. Em poucos meses, Amélia esbanjou anos e anos de poupanças sacrificadas e apertadas. Estava tão feliz! O rapaz cumpria o papel de marido todas as noites, elogiava-lhe o corpo roliço, espremia-lhe o mamilos com força e sugava-os chamando-lhe mamã, apertava-lhe as nádegas e uma vez ou outra dava-lhe umas palmadas quando tinham relações, mas ela desculpava tudo, achava que era sinal de virilidade.

Tornou-se numa velha gaiteira, como se quisesse recuperar a juventude perdida. Foi subindo as bainhas das saias e apertando as camisas para se lhe realçar os peitos cheios e redondos. As vizinhas chamavam-lhe ridícula, mas Amélia não se importava. Depois de uma vida de sofrimento e tristeza nunca pensara que podia afinal ser tão feliz. Ele tratava-a bem. É certo que havia noites que não dormia em casa.

Mas quando voltava, cobria-a de beijos e entesava-se por ela. Levava-a para a cama e fazia amor com ele me várias posições, apertava-a contra si chamava-lhe minha querida. Amélia tinha agora tudo para ser feliz: um homem que a amava com virilidade, mas que não bebia nem a tratava mal e ainda por cima, muito mais novo e bonito. Gostava tanto dele que até lhe mandou arranjar os dentes. Foi um dinheirão, para cima de cem contos, mas o rapaz ficou ainda mais bonito.

Passou-se um ano. Numa noite de chuva, tocaram à porta. Amélia foi abrir. Era Amália a sua filha, com duas malas que voltara do Canadá. Amélia espantou-se com o regresso inesperado da filha. Perguntou-lhe pelo filhos e esta respondeu-lhe que tinham ficado com o pai. Amélia quis saber o que se tinha passado, mas a filha disse-lhe que não tinha nada para lhe dizer. Tinha-se vindo embora e pronto.

Quando viu o rapaz, sentado na sala de chinelos e roupão perguntou-lhe quem era aquele estranho em casa. Amélia explicou-lhe que era um hóspede e nessa noite o rapaz voltou a dormir no sofá-cama. Amélia ficou muito aflita. Não sabia o que fazer. Naquela noite nem dormiu, a pensar como é que ia explicar à filha que sustentava um homem muito mais novo do que ela a quem já comprar um carro.

No dia seguinte, Amália disse-lhe que não se importava que a ela tivesse um hospede, porque estava só de passagem, tinha arranjado um emprego num bar em Espanha e estava de abalada. Amélia ficou feliz. Quando a filha se fosse embora, tudo voltaria ao normal.

Um dia, acordou de manhã e a filha já tinha abalado. Foi à sala e o rapaz não estava lá. Nem o rapaz, nem as roupas dele. Foi à janela e não viu o carro estacionado na rua. Desesperada, vasculhou as gavetas à procura do fio de ouro com a medalha de Nossa Senhora. Em vão. O fio também desaparecera. Só ficaram as línguas de gato e um bilhetinho escrito à pressa que dizia: Desculpa Amélia. Apaixonei-me pela tua filha. Nós um dia voltamos.

 

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