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Filet Mignon

06.11.14

A única vez que viajei para a Argentina, país austral e de grande interesse cultural onde vi os maiores e mais suculentos bifes do mundo, estava grávida e, para grande azar meu, o meu organismo tinha enjoado carne. Pois é, acontece aos melhores. Ninguém imagina o que é ter um naco de lombo à frente da altura do Empire State Buliding a escorrer molho por todos os lados e saber que não se lhe pode tocar. 

Dizem que é na Argentina que vivem as pessoas mais bonitas do mundo, mas como na altura estava casada, também não me passou pela cabeça olhar para o lado, e portanto não reparei nos tais argentinos muito giros de quem toda a gente fala, até porque o meu marido era um deles e naquela época ninguém lhe chegava aos calcanhares. 

Mas o pior ainda estava para vir. O pior é que eu nunca mais consegui saborear a carne vermelha da mesma maneira. Ainda hoje quando peço carne num restaurante me sinto ligeiramente culpada, com excepção para o frango e o pato, que, como todos sabemos, não são bem nem carne nem peixe. Nunca mais comi bife tártaro e passei a dedicar-me quase exclusivamente aos bifes, desde que o molho seja uma especialidade da casa: o bife da Portugália, o bife do Snob, o bife do Café de S. Bento e outros que vou descobrindo aqui e ali, um pouco a medo porque os bifes são como as paixões, uma pessoa atira-se de cabeça, mas sem nunca perder a consciência de que as coisas podem azedar.

Quanto a hambúrgueres nem vê-los , com excepção para os minis do Guilty e do Olivier, entalados entre um delicioso pão de sementes e um especialíssimo toque de cebola confitada que fazem de uma vulgaridade um prato delicioso.

Há homens giros, há homens muito giros e depois há os homens Filet Mignon, que além de ser giríssimos, são inteligentes, divertidos, bem-educados, descontraídos, bem-dispostos e bem-sucedidos, a par com óptima pele, dentes que parecem um teclado de piano, abdominais modelo tanque da roupa, cabelos sedosos e razoável gosto na escolha das camisas e dos sapatos, são uma simpatia. Não há muitos, é certo, mas eles andam por aí. À primeira vista pode nem se dar logo por eles, mas com as festas de Junho e uma idas à praia, eles aparecem.

Voltando à carne e aos prazeres que desta se podem e devem retirar, volto ao básico: ou é Filet Mignon, ou então não vale a pena. As solas de sapato são para os sapateiros e carne que se transforma enfarinha quando deglutida não merece a minha simpatia. E mesmo que ainda não tenha conseguido voltar aos prazeres do saudoso tártaro, o meu paladar guardará para sempre a memória de tão intenso sabor.

É que há idades para tudo e certo tipo de aventuras, gastronómicas ou outras, não se revelam interessantes a partir dos 40. Mais vale um bom bife frito com um molho de mostarda, de café ou de cerveja, e já agora, acompanhado de um copo de tinto honesto encorpado do que um produto de fast-food amorosa. Na dúvida, sushi. Ou então, sashimi.

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