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Coração hospedeiro

06.11.14

“…a chaga de amor é como a da seta: repentina, estreita na ferida, funda na penetração, não fácil de ver, difícil de tratar e custosa de sarar. A quem a observa pelo lado de fora, parece uma ninharia, mas, examinada interiormente, é altamente perigosa e as mais das vezes converte-se em fístula incurável.”

Leão Hebreu in Diálogos de Amor

 

Quis o destino que nunca acertasse uma seta na minha vida, embora a história do meu coração tenha sido mostrar aqueles que amo os caminhos do bem-estar e da alegria. E eu já atirei muitas setas, sempre na esperança de causar nos outros corações sobressaltos mais belos e doces do que os infligidos no meu coração hospedeiro, mas talvez não faça parte do meu caminho receber amor da mesma forma e com a mesma intensidade com que o espalho por outros corações, talvez apenas me seja permitido provar em breves instantes a ilusão de um sonho que a outras almas parece afinal tão fácil, simples e natural.

Por exemplo, na minha família nunca houve uma separação; pai e mãe, avôs e avós, tios e tias, irmãos e cunhadas, irmãs e cunhados, primos próximos e afastados, nunca a palavra divórcio se pronunciou para retratar a realidade, porque nunca ninguém a viveu na pele. Tias avós solteiras, isso sim, como em todas as famílias que se prezam, mas não sei se contam, porque uma era louca e a outra era lésbica e sempre viveu com a sua melhor amiga, colega do colégio interno e parte integrante da sua vida desde os dez anos.

As festas de família são um calvário e para as aguentar, tenho que deixar o coração em casa, embrulhado num papel de jornal, como o arroz, para não arrefecer. Chego a casa de um parente qualquer, tanto faz, porque são todos iguais na sua desesperante normalidade, e sou imediatamente invadida pela felicidade alheia, a felicidade das pessoas medianas que nunca perderam tempo a ler Nietzsche nem Virginia Woolf. Em vez disso preferem queimar as horas do fim de semana em grandes armazéns de decoração ou hipermercados a perder de vista, escolhendo almofadas e batedeiras, pormenores que vão compondo o lar e ajudando a criar a ilusão de uma vida organizada.

Eles sim, conhecem o sabor da continuidade. É a continuidade que salva o amor. Às vezes parece rotina, outras monotonia, outras segurança, umas vezes não se aguenta, outras parece tudo na vida. O amor é sobretudo o hábito. Acordar todos os dias, olhar para o lado e ver a mesma cara, sentir o cheiro do mesmo corpo, saber de cor todos os movimentos, adivinhar os sorrisos e os silêncios, viver debaixo da pele do outro, ou melhor ainda, trocar de pele com ele.

É a continuidade que alimenta o coração, que lhe dá força e segurança, que o segura do vazio e do abismo. Por isso amamos os nossos pais e cuidamos deles quando a idade ou a doença nos avisam que em breve os podemos perder, por isso o nosso corpo manda vir os nossos filhos, por isso adoptamos amigos para a nossa família, por isso temos cães e gatos e afilhados, por isso construímos casa sólidas e escrevemos livros. Para poder dar continuidade a uma existência que nos foge, que os desgostos cansam e a solidão mata.

Mas há corações a quem é vedada esta paz, ou porque não a sabem construir, ou porque a vida não lhe permite saborear outra dimensão da existência.

Dentro do meu coração hospedeiro, que sabe receber e fazer sentir os outros corações como se estivessem em casa, que dá amor sem pensar e trata cada passageiro como se fosse o último, procuro ainda o meu coração gémeo, na esperança secreta e nunca perdida de um dia deixar de viajar e sossegar para a vida. Não sei onde está, se o que nos separa são rios e estradas ou apenas a distância de um braço, mas se fosse amiga do Aladino, pedia-lhe a lamparina emprestada e trocava com o génio dois desejos por um, porque tudo o que um coração quer e sonha é encontrar o seu par, que não precisa de ser do mesmo tamanho nem da mesma cor, apenas que bata ao mesmo tempo e pela mesma causa.

Talvez assim, finalmente as minhas setas não se percam num arco de espera e de ilusão, teimosas e voadoras, para cair do céu aos trambolhões como foguetes em noite de festa que brilham só para os outros e por escassos segundos.

 

 

 

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