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Apaga a luz

06.11.14

É no instante exacto, nem um segundo mais cedo ou mais tarde, mas nesse exacto e preciso instante em que me olhas antes de apagar a luz, que me sinto a rapariga com mais sorte do mundo.

Lá em baixo na rua chovem gotas de cores escuras, está frio e húmido, o vento vira os chapéus de chuva do avesso como esqueletos desconjuntados e os bichos da noite procuram conforto e aconchego em mais um copo de vodka, numa linha branca de coca ou nos braços de uma quase amiga que amanhã será uma quase desconhecida. Lá fora a vida continua, a vida não muda, as pessoas fogem delas próprias para mergulhar no vazio de outros corpos, ou então fogem dos corpos que não estão vazios para não se encontrarem a si mesmas.

Lá fora é o Inverno do nosso descontentamento, a vil e desoladora condição humana à beira da loucura, presa ao calhas pelo fio da navalha, lá fora é o mundo, e eu fixo o meu olhar no teu no exacto instante que antecede o mergulho no escuro para me sentir protegida desse mundo e respiro o teu ar como se só em ti encontrasse todo o oxigénio necessário à minha sobrevivência.

Cá dentro, dentro de um mundo que é só nosso, a música mistura-se com as nossas vozes, a lareira está sempre acesa, os lençóis estão sempre limpos e esticados e o teu cheiro dissolve-se no meu. Cá dentro há paz e sossego e doçura e segurança, há um tempo fora de todos os tempos, sem relógios nem minutos, porque cada minuto é um dia e cada dia um mês e é por isso que sentimos que estamos aqui há tanto tempo, como se o tempo fosse outro, e é.

Gosto deste mundo tranquilo, aquático, etéreo e secreto, gosto de me perder nele enquanto o sono não chega, gosto de te ver adormecido ao meu lado e de poder continuar a olhar-te nos olhos mesmo quando estão fechados. A teu braço pousado em cima do meu peito e a tua respiração regular embalam-me num sono incerto e tardio, lá em baixo o comboio continua a passar e eu fecho os olhos para depois os abrir, não quero dormir, não quero perder um segundo – que para nós é uma hora – destes instantes azuis que antecedem o mergulho no sono e anunciam a chegada provável de um novo dia.

Tens uma doçura infantil que me desarma, um sorriso enorme que me abraça, um olhar perdido do mundo que se encontra quando encontra o meu, tens mãos de médico e coração de índio, tens a magia das pessoas tocadas pela sorte e pela bem aventurança e tens-me a mim. E mesmo que os dias no mundo cá fora tenham relógios em vez de comboios e passem com a mesma vertigem com que vivias antes de me conhecer, eu sei que o nosso tempo vai chegar sem nunca chegar ao fim, nestes momentos em que a perfeição se cruza com a realidade e nos transporta para um mundo só nosso.

Meu amor, apaga a luz.

 

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