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AMIZADES CASTAS, AMORES PROFUNDOS - SOBRE O ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA

06.03.15

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A nossa amizade era tão íntima quanto casta, como, mais tarde aprendi ser uma regra de ouro na amizade entre diferentes sexos: é quando nem um beijo na boca foi trocado, conta-se tudo ao outro, sem filtros nem eufemismos. Uma amizade destas é de um amor profundo.

 

Se eu fosse um objecto era objectivo, como sou um sujeito, sou subjectivo.

Era uma das frases preferidas meu querido e saudoso amigo António Alçada Baptista (1927-2008), ensaísta, escritor, cronista, apresentador de programas de programas de televisão, mas sobretudo um grande amigo do coração que me fez descobrir nada mais do que o Hemingway, o Graham Green e o Steinbeck, entre outros grandes autores.

O António era dez anos mais velho do que os meus pais e foi o primeiro adulto que me disse, trata-me por tu, miúda, porque no fundo temos a mesma idade.

E tivemos, até ele se cansar da vida. Passávamos a vida de braço dado a passear por Lisboa, à conversa como dois caturras e a descobrir tascas baratas e boas de petiscos. Uma vez, o António convidou-me para ma recepção no Palácio de Belém quando o Mário Soares era Presidente da República e, perante o olhar atónito dos conhecidos com quem nos cruzávamos, percebi nele uma malícia sem maldade ao levar-me orgulhosamente pelo braço, disse-lhe ou ouvido: se eles pensam que sou tua namorada, diz-lhes que sim, e vamos gozar o prato. E claro que gozámos o prato todo o serão e acabámos a noite numa tasca do Bairro Alto a rir do embuste: naquela noite devemos ter enganado mais de 100 pessoas.

A nossa amizade era tão íntima quanto casta, como, mais tarde aprendi ser uma regra de ouro na amizade entre diferentes sexos: é quando nem um beijo na boca foi trocado, conta-se tudo ao outro, sem filtros nem eufemismos. Uma amizade destas é de um amor profundo.

O António era viajado e aventureiro, contava-me as patifarias dele e do Jorge Amado e eu, dada a paixões intensas, partilhava os meus sonhos e as minhas angústias. A menina é um bicho que vai dar muito dôr de cabeça à rapaziada porque pensa bem e depressa e não tem medo de nada.

Eu gostava que ele me chamasse bicho porque era a forma mais carinhosa que o António tinha de tratar as mulheres. Mas gostava ainda mais quando ele dizia que eu não era um bicho qualquer, mas um que iria dar trabalho aos homens.

Eu gosto de dar trabalho aos homens porque gostar de um homem a sério dá imenso trabalho.

É preciso ouvi-lo, saber ler nas entrelinhas, dar-lhe espaço, aprender a conhece-lo sem que ele se assuste. É preciso ir-me adaptando, ser paciente, aprender a perceber o que é importante para ele, o que o faz feliz, o que o deixa seguro e o que mais o irrita. Usando mais uma expressão do António, é preciso conhecer o bicho. Só que um homem é sempre um bicho muito diferente de qualquer mulher e por isso mesmo estranho, por mais atraente que seja.

É como se funcionasse noutro sistema operativo, mesmo que desde o primeiro encontro ele nos pareça próximo e familiar. Cuidado com as aproximações meteóricas, redundam quase sempre em colisões catastróficas. Uma pessoa até pode ter sete vidas como um gato, mas se elas não matam, é certo que moem.

Eu adorava ser objectiva, conseguir olhar para um homem e apanhar-lhe as fraquezas antes dos encantos para me poupar a paixões avassaladoras e nem sempre com os resultados desejados, mas se eu fosse um objecto era objectiva, como sou um sujeito, sou subjectiva.

Já dizia a Yourcenar que a realidade nunca é exacta, pois sobre ela paira sempre o véu do desejo. Nós vemos no outro aquilo que somos, aquilo que gostaríamos de ser e aquilo que gostaríamos que ele fosse.

Às vezes temos sorte e o outro é quase tudo o que imaginámos Mas a sorte é rara, bate à porta poucas vezes na vida. E portanto, quando a ouvimos bater, talvez o melhor seja deixa-la entrar e ver o que nos traz de novo.

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