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Ambição e Devoção

06.11.14

Ao longo da minha vida conheci dois tipos de pessoas: as conformadas e as ambiciosas. Para as primeiras, a vida é igual ao que sempre foi. Habituaram-se a querer o que sempre tiveram. Pesa pouco se viveram uma infância feliz, cheia de mimo e de atenção, ou se foram emocionalmente negligenciados, porque a cada pessoa é o resultado da mistura entre o que estava destinada a ser e aquilo que escolheu ser.

Eu estava destinada a ser professora, à imagem da minha mãe e da minha irmã mais velha. Mas em casa dos meus pais existiam muitos livros que chamavam por mim, e outras mulheres que não conhecia tornaram-se meus guias de crescimento: a Sophia de Mello Breyner, a Enid Blyton, a Pearl Buck, a Isabel Allende, por exemplo. E mais tarde, a Marguerite Yourcenar, a Jane Austen e a Agustina Bessa Luís. Imaginei-me desde muito cedo a ter uma vida semelhante à delas. Não adivinhei o quão solitária seria a minha existência ao escolher a escrita, mas nunca me arrependi, porque faço o que escolhi. Citando o grande personagem Serafim Saudade do nosso cómico colectivo, ‘sei que sou o que sonhei’.

Entre sonhar com um projecto, um amor ou um estilo de vida e conseguir concretiza-lo, podemos demorar décadas. No trabalho e no amor, o que mais conta é o amor com que trabalhamos e a dedicação que dispensamos ao amor. Sem dedicação não há sonho que se torne realidade. Por isso nunca comprei uma cautela, não ambiciono ganhar a lotaria. Prefiro sonhar que, com esforço, trabalho, dedicação e amor, vou conseguindo realizar os meus sonhos, dentro e fora dos livros.

Os ambiciosos nem sempre querem mudar o mundo, mas possuem a capacidade de mudar o seu mundo. Os conformados deixam-se ir na onda, o que mudar em seu redor quase nunca será porque eles se mexeram para isso. O que também aprendi sobre estes dois tipos tão diferentes do género humano é que os ambiciosos são focados, determinados e dedicados ao seu trabalho, às suas causas e sonhos. Os conformados são quase sempre dispersos, erráticos, confusos, pouco seguros, avessos à mudança, numa palavra, derrotistas. Terão outras qualidades, mas não possuem a mesma força, não são feitos da mesma massa.

Nas relações amorosas é comum ver uma mulher forte, decidida e determinada profundamente ligada a um homem disperso e emocionalmente dependente. É menos comum ver dois ambiciosos juntos e felizes, a remar no mesmo barco para o mesmo porto. Mas eles existem. São casais vencedores, pena do mesmo pato, no qual nenhum é dominado porque ambos são dominantes mas respeitam a força do outro e por isso entendem-se. Quando uma mata, o outro esfola, são como pena do mesmo pato e formam uma equipa de alta competição. São poucos, mas os que conheço, são unidos e felizes. Admiram e protegem o outro acima de tudo. Aplicam a dedicação ao amor e a tenacidade à resolução de conflitos.

Talvez a última lição que aprendi sobre o amor é que devemos procurar ter ao nosso lado quem está ao nosso nível de inteligência, de dedicação e de ambição amorosas. Alguém que olhe para nós com admiração sem nos colocar num pedestal, que tenha segurança e estrutura para ser um par que nos complete e não alguém que nos adule para depois nos sugar a energia que nunca teve.

O amor é muito parecido com o trabalho: é preciso saber como fazê-lo, dar-lhe força e asas, descansar de vez em quando e depois voltar ao que nos é mais querido e importante na existência. Quem não se atira nem se dedica, nunca conseguirá construir nada. E as pessoas mais felizes que conheço são as que puseram a mão na massa e mudaram de vida quando não estavam onde queriam. A devoção levou-as mais longe e ficaram mais perto de quem queriam ao seu lado.

 

 

 

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