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Amar e Confiar

06.11.14

Cada escravo carrega a chave da sua liberdade. Sempre que escrevo um livro, escolho uma banda sonora para me fazer companhia e afeiçoo-me a ela. É fácil uma pessoa afeiçoar-se a uma música, porque enquanto a ouvimos, vivemos coisas inesquecíveis. Por isso os casais apaixonados têm a sua música, que pode ser a que estava a tocar quando se conheceram ou quando trocaram o primeiro beijo. É claro que a mesmo música é partilhada por milhões de casais no mundo inteiro, mas a partir do momento em que a escolhemos, ela passa a ser só nossa, património inviolável do nosso histórico amoroso.

O mesmo acontece com os nomes que chamamos ao nosso amor e que tantas vezes nada têm a ver com o seu nome próprio, porque aquela pessoa, conhecida por toda a gente por outro nome, quando passa a responder por um nome que só nós lhe chamamos é um bocadinho mais nossa. Podem ser vários nomes, consoante a circunstância, porque a variedade faz bem às relações. É preciso imaginação para tudo na vida. Imaginação e trabalho são os segredos de um grande amor. E um grande amor não é um amor vivido em grandes momentos, mas construído com muitos momentos de amor, um dia atrás do outro, porque todos os gestos são importantes.

Comecei esta crónica com uma frase sobre liberdade porque quando me sento a escrever uma crónica, também escolho uma música. Esta semana, sem saber bem como, fui parar à Marcha Eslava de Tchaikovsky, o meu compositor russo preferido. Tchaikovsky é mundialmente conhecido pelas suites de bailado como O Quebra-Nozes, Romeu e Julieta ou O Lago dos Cisnes, mas a sua obra musical é extensa e extraordinária. Tanto as sinfonias como os concertos são de arrebatar os corações mais empedernidos e despertam o prazer pela música aos ouvidos mais duros.

O compositor russo que conheceu a glória em vida, teve uma existência sombria e atormentada, em grande parte pela morte prematura da mãe e também porque lhe era difícil aceitar a sua homossexualidade, ao contrário do seu irmão, também homossexual e seu único confidente. Tentando combater a sua natureza, chegou a casar com uma antiga aluna do Conservatório que era apaixonada por ele desde os 16 anos. Quando casaram, Antonina Molyukova tinha 28 anos e o casamento durou apenas dois meses.

Reza a lenda que o compositor ‘fugiu’ do leito nupcial na própria noite da boda. Num tempo em que a homossexualidade era vista como um crime, aguentar o segredo da sua natureza sob uma aura de sucesso terá dado cabo dele. Morreu aos 53 anos, não se sabe se de cólera ou de suicídio. Quando ouvimos a sua música, conseguimos sentir uma onda de sofrimento nostálgico que atravessa toda a sua obra. A sua ultima sinfonia, a “Patética” é o expoente máximo do seu tormento e talvez por isso mesmo, apesar de ser extraordinária, a que oiço com menos frequência.

Uma natureza atormentada é própria de um espírito artístico, quer pela sua génese profunda e indissociável do seu carácter, quer pelo tempo que é obrigado a passar sozinho a trabalhar. Um actor trabalha com a voz, com o corpo e com outras pessoas; um compositor, um pintor ou um escritor trabalham sozinhos. Não há outra forma de o fazer. E a solidão é como um polvo com muitas pernas, vai-nos cercando e apertando cada vez mais, e nem o sucesso nos poupa a essa condição. Por isso digo tantas vezes que aquilo que me alimenta também é o que me mata. Quando existiam faroleiros, eles encabeçavam a profissão mais infeliz do mundo, por causa do isolamento assim como os escritores. No extremo oposto estão os cabeleireiros, porque passam as horas do seu trabalho a embelezar os outros, criando com eles laços de afecto que são ao mesmo tempo leves e sérios. Um compositor ou escritor trabalha com os seus fantasmas e por isso, das duas uma: ou os domina, ou se deixa consumir por eles.

O mesmo acontece a outras almas atormentadas que não conseguem entender-se com os seus medos, fobias, traumas e fantasmas. Um grande amor pode ajudar-nos a encontrar o nosso caminho, mas para isso é preciso confiar no outro e em si mesmo, é preciso acreditar que juntos somos mais fortes do que separados e sobretudo que podemos ser mais felizes. O amor é sempre um caminho e um caminho tem necessariamente de nos levar a um lado qualquer. E, tal como os livros e as músicas, também nunca tem fim, porque voltamos a ele sempre que o nosso coração nos chama. O truque está e entregar a chave a quem amamos, porque sozinhos, nem sempre conseguimos abrir a fechadura. Imagino que Tchaikovsky tenha vivido como um escravo e por isso mesmo, a tristeza tenha contribuído para o seu fim. Ou não encontrou a chave, ou nunca confiou em ninguém para a entregar.

 

 

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