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À procura de Artur

06.11.14

Como sou uma rapariga normal, hoje saí de casa e apeteceu-me comprar um peixe. Chamem-lhe capricho, mas de repente, achei que um ser vivo e cor de laranja na sala podia emprestar alguma expressividade à minha existência, distraindo-me com a sua silenciosa e incasável expressão corporal, enquanto aqui estou agarrada ao computador a programar sites de clientes do outro lado do mundo para Oeste com fornecedores do outro lado do mundo para Este.

Como são muitas horas de trabalho a contar com o desfuso horário entre Portugal, a Califórnia e a Índia, não posso ter um cão que é preciso levar a passear à rua três a quatro vezes ao dia, nem um gato, porque esses idiotas pensam sempre que são mais inteligentes do que nós, mas trabalhar para pagar as Whiscas é que está quieto ó preto, neste caso, está quieto ó gato.

Do que eu precisava era de um bicho pacato, que fosse barato e desse pouco trabalho. Com quem eu pudesse desabafar as minhas mágoas e me olhasse com complacência e solidariedade, sem no entanto precisar de pronunciar uma única palavra. Que me desse cor e movimento à vida e até, quem sabe, algum conforto, mas não deixasse a tampa da retrete para cima, pêlos da barba no lavatório e meias sujas enroladas como bichos de conta num momento de inspiração anárquica aos pés da cama.

É isto que algumas raparigas normais sonham quando idealizam um modelo perfeito de namorado. Eu contento-me com um peixe e considero-me uma rapariga cheia de sorte porque, como já não tenho namorado, posso sair à rua para coisas tão prosaicas como comprar um peixe a quem chamei de Artur, porque era o nome do meu namorado, antes dele ter decidido ir viver para outro lado mundo, muito mais longe do que a índia ou a Califórnia, à procura dele próprio, que é o que fazem os homens quando não querem crescer nem assumir responsabilidades.

Se calhar também me deu para comprar o peixe, porque na Nova Zelândia, que é onde ele está, há imensos peixes de imensas cores e ao menos assim é como se tivesse o Artur por perto, a rir-se para mim e a encolher os ombros de vergonha quando eu reclamava os pêlos da barba e o tampo da retrete deixado descaradamente para cima. A verdade é que me armei em forte quando ele se foi embora, mas aqui fechada todos os dias a olhar para o outro Artur, só me apetece cruzar os oceanos como o pai do Nemo e ir à procura do único rapaz de quem gostei, porque afinal o que é a vida sem amor, senão uma existência vazia e adiada, estéril e sem sentido?

Está bem, uma pessoa trabalha, ganha dinheiro, vai ao cinema e tem amigos, leva a avó a comer ducheses na pastelaria da esquina, bebe copos e dança até às sete da manhã, troca emílios e mensagens escritas no lindo visor do nosso melhor amigo que em vez de ladrar e ter orelhas compridas, canta excertos de peças clássicas e tem cara de extra-terrestre – isto é se um telemóvel pode ter cara de alguma coisa – faz ginástica, muda os móveis em casa, compra peças de roupa fantásticas nos saldos da Fashion Clinic, mas sem amor, sem esse fogo que arde sem se ver, sem essa ferida que dói e não se sente, que sabor tem a vida além do papel de jornal que se lê todas as manhãs para se fingir que até nos interessamos pelo que se passa no mundo?

Desatino é mesmo não sentir o poder do amor. Achem-me romântica, exagerada, adolescente tardia, infantil, o que quiserem, mas desde que o Artur se foi embora que a casa perdeu a cor, a tinta caiu das paredes e nem o outro Artur me consegue animar. Vou mas é aos leilões das companhias aéreas da net e cruzar os céus para resgatar o homem da minha vida, que, se a providência assim o quiser, não há de estar preso no aquário de um dentista como o Nemo, e pelo caminho mando à fava os clientes americanos da Califórnia com um Volto Já pespegado num emílio, até encontrar o meu príncipe encantado que deixava pêlos da barba no lavatório e as meias enroladas como bichos de conta ao pés da cama, mas que nenhum peixe pode substituir.

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