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A Morte de um Sonho - a partir de uma frase de Truman Capote

16.12.14

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A morte de um sonho é tão triste como a própria morte, merece por isso o luto e o respeito por aqueles que a sofrem. Palavras do escritor americano Truman Capote, considerado por muitos dos seus contemporâneos uma alma maldita e sem coração que alcançou o sucesso através da obra A Sangue Frio, um romance segundo as palavras do próprio, de não-ficção, relatando o brutal assassinato de um família no Kansas em 1958.

Truman Capote nunca foi boa rês e terá sido a sua obra literária que acabou por o matar em vida. Quando, já com bastante idade, se aventurou a publicar dois capítulos do seu livro Súplicas Atendidas na revista Esquire, nos quais contava sem pudor as aventuras e desventuras amorosas e sexuais de actores, actrizes e socialites seus conteporâneos, foi de imediato ostracizado por todos. Os dois últimos capítulos só viriam a ser publicados postumamente. É um livro terrível, que expõe as fraquezas alheias, cheio de cinismo e de maldade. Mas este é o mesmo homem que escreveu um dos mais maravilhosos contos sobre a infância intitulado Um Natal em 1982, bem como o livro que celebrizou Audrey Hepburn enquanto princesinha intocável na via láctea das estrelas de Hollywood, Boneca de Luxo, com o título original Breakfast at Tiffanny’s em 1965.

A frase acima citada ficou-me colada à memória há muitos anos, sem que agora consiga localizar de que livro a retirei. Talvez tenha sido do seu primeiro romance Outras Vozes, outros Lugares, curiosamente o primeiro que comprei do autor e ao qual perdi o rasto.

Tal como Oscar Wilde, que em vida atingiu tanto a glória como a desgraça, Capote foi vítima do seu sucesso. Wilde escolheu mal o seu amante, foi o pai deste que o mandou para a prisão. Capote escolheu mal as pessoas que retratou sem pudor e acabou sozinho, encharcado em álcool e barbitúricos, o que contribuiu ainda mais para a sua condição de escritor maldito.

Há uns anos, sempre que me lembrava desta frase, pensava que Capote se estaria a referir à morte de uma relação amorosa que o tempo, a distância, as circunstâncias, o medo ou a fraqueza de uma das partes não permitiu que sobrevivesse. Quando um amor acaba, vivemos uma espécie de morte simbólica, porque perdemos alguém que queríamos ao nosso lado. O apego é o preço do afecto, quanto mais forte é o nosso amor, maior é a tristeza na perda. Mas agora que olho para trás e revejo a vida e a obra deste homem que só devia usar o coração aos dias feriados, inclino-me a pensar que o seu sonho talvez fosse outro; um sonho egoísta e narcísico que tinha apenas a ver com sua glória pessoal. Talvez Truman Capote tenha amado algumas pessoas ao longo da vida, mas a sua biografia mostra-nos que ele se manteve próximo quem lhe era útil. Ao contrário de Oscar Wilde, que perdoou ao seu amante Bosie a ausência de respostas às suas cartas na prisão bem como o facto de nunca o ter visitado durante os 18 meses que esteve preso.

A morte de um sonho mata-nos sempre um bocado por dentro: somos obrigados a desistir de algo que queríamos, uma vida sonhada a dois, gestos simples do quotidiano, palavras e crenças que se perdem no tempo como lágrimas na chuva. Os escritores nem sempre sofrem como escrevem, mas é certo que escrevem como sofrem e esse sofrimento afecta mesmo os corações mais empedernidos. Não sabemos quem Truman amou, na sua biografia aparecem homens e mulheres quem esteve ligado. Mas estar ligado a alguém e amar essa pessoa não é a mesma coisa, porque quem se liga, desliga e quem ama demora tempo a deixar de amar. O amor não se desliga da ficha. Se desligar, não é amor.

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