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A MINHA AMIGA LAURA - OU PARA QUE SERVEM AS AMIGAS

06.04.15

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O amor é uma espécie de roleta russa com balas de borracha, daquelas que não matam mas fazem mossa e até passarmos a fase da paixão em que o outro nos parece sempre A Pessoa Certa Para Nós, precisamos de alguém com uma visão mais clara e objectiva dos factos.

 

Tenho para mim que o amor me enfraquece, diz-me a Laura, amiga de longa data, entre duas passas de cigarro. A Laura é boémia, gosta de copos e de noite, às vezes vamos dançar, mas assim que lhe digo que fui apanhada na curva pelo sono, já me conhece tão bem que vai comigo à rua apanhar um táxi, e no dia seguinte liga a perguntar se dormi bem.

A Laura pertence a um tipo pouco comum de mulher, não tem tendência para se apaixonar. Como elas se define, e bem, não estou para meias coisas; ou tenho casos ou então caso-me e assunto arrumado. Só namorou quando era muito nove e ainda não tinha percebido como é que os homens funcionavam. Para ela, os homens só tê dois modos: o on, quando estão apaixonados, ou gostam de nós e nos dão toda a atenção do mundo, e off, quando se desligam e deixamos de existir. Pergunto-lhe: mas então eles não dúvidas, nem sonhos como nós? Sim, mas nem todos. Ou seja, todos têm coração, mas nem todos o usam.

Eu gosto de conversar com a Laura por ser tão diferente de mim. Amamos os amigos e os filhos da mesma maneia, mas não colhamos para os homens da mesma forma. A Laura trata-os bem, mas dá-lhes pouca confiança. Não precisa de estar envolvida com ninguém para se sentir feliz. Basta-lhe uma aventura saudável, de preferência com um homem que esteja livre, mas que não queira namorar com ela. Namorar é coisa de adolescente, diz-me. Então como é que conheces o outro, como é que vais desenvolvendo uma relação com ele? Através da cumplicidade e de uma amizade erótica. E se sinto que me estou a envolver, corto as vasas e fujo., desisto, porque tenho para mim que o amor me enfraquece.

Escrevo sobre a Laura porque acredito que nós, mulheres, temos muito a aprender com ela. É evidente que ser mais ou menos fria com os homens depende das expectativas que temos sobre eles e da forma como encaramos o amor. Mas no meu caso, que sofro de Romantismo Crónico, a Laura é o meu grilo-falante; não me deixa levantar os pés do chão. E mesmo assim, quando a teimosia me tolda a lucidez a me ponho a jeito, a Laura nunca ralha, nunca é moralista, nunca lhe sai o clássico, eu bem te avisei, porque me conhece e sabe que cada um é como é.

Todas as mulheres deviam ter uma ou duas Lauras na vida. São como um escudo protector, uma espécie de batedores nos caminhos sinuosos da floresta: elas farejam o lobo mau muito antes de nós e raramente se enganam no diagnóstico. É claro que podemos sempre escolher o caminho da estrada em vez de ir pela floresta, mas é na floresta que há sonho e mistério e borboletas, dentro da barriga e fora dela. O amor é uma espécie de roleta russa com balas de borracha, daquelas que não matam mas fazem mossa e até passarmos a fase da paixão em que o outro nos parece sempre A Pessoa Certa Para Nós, precisamos de alguém com uma visão mais clara e objectiva dos factos.

Quem tem uma Laura, tem um anjo da guarda, embora o que ela nos diga nem sempre nos anime. Duas cabeças pensam melhor do que uma, sobretudo se uma delas estiver sob o efeito estupidificante e entorpecedor da paixão. Há amizades que nunca se podem perder, por serem mais fortes, mais sérias e mais vitais do que alguns amores. Sobretudo aqueles que parecem ser tudo e depois acabam em nada. Nesses momentos de vazio e de confusão, a visão pragmática de uma mulher sábia é como um balão de oxigénio. E mesmo que nos custe respirar, é sempre melhor lidar com a verdade do que enterrar a cabeça na areia e fingir que não percebemos.

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