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A Fábula do Lobo Mau e do Peluche profissional

06.11.14

 

- Tirei uma senha para falar consigo e não sei qual é o meu número – disse o rapaz que estava no bar, depois de meia hora a olhar fixamente para a minha amiga. Vinha com um sorriso aberto e duas bebidas na mão. Estendeu-lhe um dos copos. Teve sorte. Era uísque. E ela gosta de uísque. Olhou-o de alto abaixo, e sem tempo para ponderar os prós e contras, respondeu:

- É o próximo.

A noite acabou na tarde seguinte. Quando ele saiu de casa dela, já passava das quatro. Não é uma história de amor, é uma história de atracção, de desejo e de tesão. Três semanas depois voltámos ao mesmo bar. E lá estava ele. Desta vez avançou com três copos. Como já tinha sido barmen pareceu-me que o fazia com grande facilidade e elegância. Ofereceu um uísque à minha amiga e uma Coca-Cola a mim.

- Reparei que não bebes álcool, - disse-me com o mesmo sorriso rasgado do primeiro dia. Os olhos faiscavam de desejo por ela e de repente pareceu-me ver-lhe crescer um par de orelhas bicudas e a boca pequena e fina transformar-se num focinho pontiagudo. A minha amiga chama-lhe o Lobo Mau. Saio com eles e já sei o que a casa gasta. Um predador reconhece sempre outro predador. E eu fico a gozar o prato, a assistir de camarote ao eterno jogo de sedução entre dois espertalhões que se divertem com a companhia um do outro, e no dia seguinte logo se vê, tanto faz se voltam a encontrar-se dali a dois dias ou duas semanas, porque a vida continua e a fila anda.

Há mulheres para quem a fila anda mais devagar. Demora a avançar. Às vezes uma pessoa esteve na fila do guichet errado e só quando chega lá é que percebe. Como quando quer apanhar o eléctrico e o confunde com um comboio. Em vez de ir parar ao Castelo de S. Jorge vai parar às Mercês. Erros de percepção. Acontecem aos melhores. Mas o importante é que a fila anda. Se uma pessoa se engana no caminho, volta atrás e olha para o mapa. Traça uma meta e segue um plano. Mesmo que o plano seja ficar quieta até a vida nos trazer um plano novo.

O pior é quando um homem que já fez parte da nossa vida e se foi embora quer voltar atrás no tempo, apagar o passado recente e nos diz: Tirei uma senha para voltar para a tua vida, mas não sei qual é o meu número. Dizemos-lhe que a senha dela já passou, que volte no dia seguinte, como se fosse a Loja do Cidadão onde as senhas da Segurança Social esgotam menos de meia hora depois do horário de abertura? Ou informamos apenas que o sistema de senhas só vale para a primeira volta, que há comboios que só passam uma vez, quem sabe, numa próxima vida a malta ainda de cruze e role um clima, como dizem os nossos irmãos brasileiros?

Quando um homem perde a senha, perde tudo. Perde o tempo de ficar com a mulher que queria. Perde a oportunidade que a vida lhe trouxe. Mas perde porque quer. Porque se quisesse mesmo, não teria tido dúvidas, não teria virado as costas, não teria pedido um tempo e um espaço. Tempos dão-se no futebol e quanto ao espaço, manda a lei básica da física que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Mais vale um Lobo Mau assumido do que um peluche hesitante e profissional. Com ou sem senhas, é preciso saber quando um homem tirou a senha está ali para ir e voltar, ou para ficar. Se o objectivo for puramente lúdico, o tempo não conta e o espaço acaba por nunca ser ocupado, porque é para o que é. Mas se o espírito for outro, se houver paixão, envolvimento, vontade de permanecer, de estar e de ficar, não dá para desaparecer e tentar a sorte numa segunda volta. As senhas é para quem as quer agarrar. Caso contrário, a fila anda. E o guichet fecha.

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