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A Caixa de Pandora

06.11.14

Às vezes acho que são as palavras que se viram contra mim, exactamente nos momentos cruciais, aqueles em que elas, as palavras, me poderiam valer. Talvez as use com excessiva facilidade e as gaste com toda a minha pretensa eloquência. Ou talvez elas não representem quase nada, nem sequer o significado que lhes damos. O que contam são os actos, esses sim, falam mais alto. E o que nunca se ousou dizer, o que se guarda no peito durante dias, semanas ou anos como um tesouro precioso e clandestino que perde o encanto e o valor se for revelado ou descoberto.

Mas é mais forte do que eu. Há anos que me sento em frente a um ecrã branco e o encho com caracteres pretos, criando a ilusão que desta forma encho os meus dias e dou uma ajuda a mais algumas pessoas, os meus leitores, que encontram naquilo que lhes escrevo, respostas e soluções para tristezas e enigmas que o meu conhecimento não alcança.

O meu apego às palavras é tão grande que são elas o princípio, o meio e fim da minha existência, a única forma que alcanço para me relacionar com os outros e com o mundo. E também comigo, quando falo sozinha com os meus botões e procuro respostas e explicações para tudo.

E depois, depois há as palavras dos outros. De todos os escritores cujos livros conversam na minha casa, que vou descobrindo nas minhas viagens ou recebendo através de amigos generosos, histórias perfeitas e parágrafos sublimes que vou coleccionado como o prazer e a culpa de quem se apropria de tesouros alheios. E quando as palavras que os outros escrevem dizem o que sinto, sinto-as como minhas e registo-as num caderno, no telemóvel, num guardanapo de papel, para mais tarde as oferecer a alguém.

Citações, aforismos, diálogos, monólogos, descrições de um personagem, de uma casa, de um lugar. Frases soltas, reflexões, princípios filosóficos, abreviaturas, nomes, alcunhas, diminutivos, expressões idiomáticas, provérbios e ditado populares, tudo serve para me entender melhor com a realidade, penso eu.

Mas talvez não seja assim. Talvez tenha escolhido o caminho oposto para alcançar o entendimento. Quanto mais penso, me organizo e me respondo, mais dúvidas tenho e menos satisfeita me sinto. A pouco e pouco comecei a perceber que nunca há respostas para tudo. E as poucas que existem, ou são erradas, ou são absurdas.

E é então que baixo os braço, entrego as armas e desisto a favor do silêncio, que é tudo o que me resta. Mas silêncio nunca traz respostas. Instala-se como um tirano que ocupa todas as casas e jardins do mundo, que manda prender e torturar todos os que falam, que se esconde atrás da indiferença, do desinteresse, do vazio, da distância, tentando convencer-me que é melhor assim, como se as palavras vivessem todas na caixa de Pandora e fosse um crime para a humanidade abri-la e deixá-la respirar.

Um dia destes faço um furo na caixa, daqueles quase invisíveis, tipo formiga branca e começo a ver as palavras a sair numa coluna de fumo, uma a uma, quase sem se dar por isso. Pode ser que então saiam as palavras certas, poucas, sempre poucas, as suficientes para te fazer voltar ao mundo em que éramos quase sempre felizes, com ou sem elas.

 

 

 

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