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Desordem natural

06.11.14

Há uma nova ordem natural das coisas, ou talvez devesse chamar-lhe desordem.

Foi o que dei por mim a pensar enquanto limpava a cara com leite hidratante, base, pó e sombras, eye liner e rímel para aprofundar o olhar e outros truques que nos emprestam a aisance necessária para enfrentar o mundo. Ele escovava os dentes e ambos olhávamos o outro ligeiramente de lado, como se quiséssemos passar despercebidos.

- Os meus ovos estão a acabar, tu sabes?

- Eu sei, querida, penso muitas vezes nisso.

Eu também, quase disse, mas depois calei-me e fomos deitar-nos. Claro que ele sabia. Há mais de quatro anos nisto, e a querer casar e ter filhos, e ele não.

Apagou a luz e ficámos os dois quietos, presos um no outro. E foi então que me disse que pensava muito no futuro, que às vezes ainda sonhava o futuro comigo, casa, filhos e férias juntos, uma família feliz, que já estivera muito mais perto de me pedir em casamento do que eu alguma vez suspeitara, mas o medo impedira-o sempre de avançar. Em vez disso, marcava o território, qual macho indeciso, e eu, muito parva, em vez de acender a luz e lhe perguntar, mas porque raio é que nunca o fizeste, deixei-me estar quieta no escuro e respondi:

- Ainda bem, fico muito contente, afinal não estava maluca estes anos todos, afinal tu sempre gostaste de mim  - e depois adormecemos mergulhados naquela paz triste e serena própria de quem perde a guerra porque não lhe apetece lutar a última batalha. 

Nunca sabemos quando deixamos de amar alguém, o amor nunca morre, é como uma velha árvore que se vai desfazendo; os troncos ficam demasiados pesados e quebram, as folhas estalam e caem, é um processo muito lento, sobretudo quando não queremos deixar de amar.

Durante demasiado tempo eu pusera os meus ovos todos naquele cesto. Por obstinação, infantilidade, ou as duas coisas. Aí guardei a minha ideia de futuro: os ovos do sonho, da esperança, da fertilidade. Mas o cesto estava vazio. E, do outro lado da realidade, o medo, ainda e sempre esse monstro cinzento igual à morte, apenas sem a ceifa erguida, que sempre o impedira de se atirar à vida e de ser feliz.

Dormi pouco, sobressaltada por imagens do meu futuro impossível.  Era como se já o tivesse vivido sem nunca ter passado por ele. Crianças de cabelos aos caracóis com o riso igual ao meu, uma vida em comum, semelhante à dos comuns mortais da casa ao lado, da rua de cima, da cidade vizinha, quem sabe até de outros planetas, porque o amor é universal e a vontade de criar laços e de ter filhos atravessa todos os seres vivos.

Era muito cedo quando se levantou e me trouxe uma chávena de café antes de sair. Quis perguntar-lhe porquê, mas já não valia a pena pedir, explicar, insistir, chorar e rir, todos os verbos estavam gastos, e no entanto todos os gestos eram ainda e sempre tão belos. Ele a pentear-me a franja para o lado com cuidado, a olhar para mim como se tivéssemos 10 anos e eu fosse a sua primeira namorada, e depois a ir-se embora devagar, como quem nunca quer partir, enfrentando a desordem e o caos que governam o mundo.

Fechei os olhos e adormeci de novo. Quando acordei, vi um embrulho enorme em cima da mesa de cabeceira. Era o cesto dos ovos. Estavam todos lá dentro, muito arrumados, de várias cores e tamanhos. Peguei no cesto e fui-me embora. Finalmente estava livre. Agora já podia ir até ao fim do mundo.

 

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Coração de Licor

06.11.14

O Natal sem ti não é o mesmo. Ontem abrimos os presentes. Os miúdos estavam muito excitados e toda a família parecia feliz; a minha mãe muito contente de ter com ela os seus meninos, o meu pai rabugento mas de pança cheia com o bacalhau e a minha irmã Marina muito orgulhosa a exibir o seu balão de oito meses que em Fevereiro se vai chamar Francisco. Mas faltavas tu, e por isso eles olhavam para mim como se eu fosse um cão com uma pata a menos e davam-me pancadas nas costas

isso passa, vais ver que isso passa

como se uma separação fosse uma constipação, como se o nosso casamento se pudesse voltar a colar, a reconstruir, como um jogo de Lego que todos os anos dão aos miúdos, como se a vida se remendasse com cola, ou com um golpe de magia, a varinha do Harry Potter a mudar o mundo ao nosso gosto, sonhos impossíveis que não cabem na realidade.

Mas eu acho que fizemos bem em nos termos separado. O nosso casamento já não era um casamento, era uma empresa de ocupação de tempos livres para crianças mimadas e adultos desencontrados. Não sei como nem quando perdemos a magia, mas sem dar por isso, a pouco e pouco, fomo-nos afastando e quando dei por ti já eras outra pessoa.

Sou um homem simples, tudo o que quero é ser feliz e ver os meus filhos felizes. No fundo, apesar de ter crescido na cidade, de ter estudado em colégios particulares e me ter formado na Universidade Católica, o sangue que me corre nas veias é do campo, da serra, da terra bravia e árida, do silêncio das montanhas e do frio cortante da Beira.

Sou um beirão com sabor a licor, dizem-me as outras mulheres, que vou tocando com a minha simplicidade, sempre à espera que uma delas seja a minha, aquela que eu imagino ao meu lado a passear pela serra, de barrete, cachecol e as mãos dadas e luvas muito grossas e quentes, como são as minhas mãos, como é o meu amor à terra, aos filhos e à vida.

Depois de ti, houve várias mulheres e o meu coração de pinga amor, coração de licor, julgou encontrar outra vez o amor. Mas confundi-o com paixão, com desejo, com carência, com vontade de sentir um corpo debaixo do meu e cansei-me delas. Uma porque era muito nova, a outra porque queria que lhe desse o mundo e outra ainda, porque nunca me pedia nada.

Até que outro dia apareceu-me um anjo numa festa, metade cisne metade mulher, com o pescoço muito comprido e olhar de criança e pus-me a sonhar que com ela podia ser diferente. Tem uma voz de licor como a minha, filhos e alguns natais passados em solidão. É bonita, tem braços de princesa, mãos aristocráticas e precisa de ser protegida.

Ela diz que não, que vive feliz assim, mas eu acho que quando passou mais um Natal sozinha com os pais, os irmãos e os cunhados, também lhe deram pancada nas costas e lhe disseram

isso passa, vais ver que isso passa

ela também se sentiu só, também sentiu que se pudesse, pegava na varinha do Harry Potter e mudava a realidade, porque ela também é uma pinga amor, também tem um coração de licor como o meu, só que com um toque de Amarguinha porque está um bocado cansada da solidão.

Por isso, quando voltar à cidade, depois das rabanadas e dos presentes desembrulhados, vou pegar nela e levá-la a passear para dentro do meu coração, pode ser que ela se sinta bem e este Inverno seja passado à lareira, a sonhar com os próximos 20,30 anos, com a seriedade de quem brinca.

 

 

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Apaga a luz

06.11.14

É no instante exacto, nem um segundo mais cedo ou mais tarde, mas nesse exacto e preciso instante em que me olhas antes de apagar a luz, que me sinto a rapariga com mais sorte do mundo.

Lá em baixo na rua chovem gotas de cores escuras, está frio e húmido, o vento vira os chapéus de chuva do avesso como esqueletos desconjuntados e os bichos da noite procuram conforto e aconchego em mais um copo de vodka, numa linha branca de coca ou nos braços de uma quase amiga que amanhã será uma quase desconhecida. Lá fora a vida continua, a vida não muda, as pessoas fogem delas próprias para mergulhar no vazio de outros corpos, ou então fogem dos corpos que não estão vazios para não se encontrarem a si mesmas.

Lá fora é o Inverno do nosso descontentamento, a vil e desoladora condição humana à beira da loucura, presa ao calhas pelo fio da navalha, lá fora é o mundo, e eu fixo o meu olhar no teu no exacto instante que antecede o mergulho no escuro para me sentir protegida desse mundo e respiro o teu ar como se só em ti encontrasse todo o oxigénio necessário à minha sobrevivência.

Cá dentro, dentro de um mundo que é só nosso, a música mistura-se com as nossas vozes, a lareira está sempre acesa, os lençóis estão sempre limpos e esticados e o teu cheiro dissolve-se no meu. Cá dentro há paz e sossego e doçura e segurança, há um tempo fora de todos os tempos, sem relógios nem minutos, porque cada minuto é um dia e cada dia um mês e é por isso que sentimos que estamos aqui há tanto tempo, como se o tempo fosse outro, e é.

Gosto deste mundo tranquilo, aquático, etéreo e secreto, gosto de me perder nele enquanto o sono não chega, gosto de te ver adormecido ao meu lado e de poder continuar a olhar-te nos olhos mesmo quando estão fechados. A teu braço pousado em cima do meu peito e a tua respiração regular embalam-me num sono incerto e tardio, lá em baixo o comboio continua a passar e eu fecho os olhos para depois os abrir, não quero dormir, não quero perder um segundo – que para nós é uma hora – destes instantes azuis que antecedem o mergulho no sono e anunciam a chegada provável de um novo dia.

Tens uma doçura infantil que me desarma, um sorriso enorme que me abraça, um olhar perdido do mundo que se encontra quando encontra o meu, tens mãos de médico e coração de índio, tens a magia das pessoas tocadas pela sorte e pela bem aventurança e tens-me a mim. E mesmo que os dias no mundo cá fora tenham relógios em vez de comboios e passem com a mesma vertigem com que vivias antes de me conhecer, eu sei que o nosso tempo vai chegar sem nunca chegar ao fim, nestes momentos em que a perfeição se cruza com a realidade e nos transporta para um mundo só nosso.

Meu amor, apaga a luz.

 

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Amores de Papel

06.11.14

Cheguei a casa com as tuas flores de papel presas no coração. Escolhi uma jarra antiga, e plantei-as na sala onde descanso, sonho e trabalho. As tuas flores são enormes, generosas, simpáticas e guardam o teu perfume. Sempre que passo por elas, o teu cheiro entra pelo meu corpo e enche-me de bem estar. É sempre cheia de bem estar que me sinto quando penso em ti, na tua alegria, generosidade e beleza, mesmo que o nosso amor seja feito de papel como estas flores.

Não precisamos de o regar todos os dias, nem de adubos, nem cortar ao caules. Nem sequer precisamos de água, o nosso amor é quase imaterial, tu aí e eu aqui, milhares de quilómetros por terra e duas horas e meia de voo.

Quando te vejo, o meu amor desenhado no papel torna-se real, ganha vida, cor, textura e cheiro e somos só um na mesma casa, siameses a passear na rua, gémeos a conversar, namorados a dormir. A nossa vida enche-se com a do outro e tudo o que desejamos é que o outro esteja tão feliz como nós. Depois, quando me separo, já não choro. Sei que o que pode acontecer é um mistério da existência e quanto menos planear, mais sorte vou ter. Demoro alguns dias a descer à terra, vou ao supermercado e encho o frigorífico para disfarçar o vazio no coração e escrevo muito, porque enquanto escrevo é como se aqui estivesses ao meu lado, gémeos a dormir e namorados a conversar, a lareira acesa e a paz de uma continuidade sonhada, porém possível.

É um amor de papel, frágil e opaco, leve e branco, feito de ideias, de sonhos, de esperança e de muitas cores. Um amor sem planos nem projectos, quase adolescente, intenso, puro e perfeito, que não precisa de provas nem palavras.

O amor é um acto de fé, uma manifestação de esperança. É como plantar uma semente. Por isso, a última vez que te fui visitar, também trouxe uma caixa de bolbos para plantar no meu jardim. Estou atrasada porque o Inverno já começou, mas pode ser que tenha sorte e na Primavera a minha entrada em casa seja um festival de cores e aromas. Algumas flores vão morrer, outras vão ser mais pequenas, mas sei que as mais fortes vão vencer o frio e germinar com grande beleza e generosidade. E sei também que por esses dias te vou ver por aqui, a ensinar-me a cuidar delas, tu que cuidas do meu coração melhor do que ninguém e nem sequer sabes.

O nosso amor é de papel, como as flores que me deste e no papel há de ficar, para sempre escrito nas minhas palavras. E se um dia se transformar em qualquer outra coisa, será sempre numa outra forma de amor, porque o papel vem das árvores, mas o amor vem do amor e nunca morre, mesmo depois de cortado, prensado e transformado, porque amor é como plantar um semente e tu já plantaste a tua no meu coração.

 

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Agora ou Nunca

06.11.14

Todos os anos é isto; chegas ao verão, dá-te a maluca e piras-te para o Algarve com o teu grupo de amigos, cada um mais acéfalo do que o outro e desapareces durante três semanas. Tens sorte, porque o papá dá-te uma mesada que é quase o dobro do meu ordenado e por isso não fazes a menor ideia do que são as obrigações do trabalhador por conta de outrem, o direito a 22 dias de férias escrupulosamente marcados até Abril, como se em Abril uma pessoa tivesse a mais vaga ideia onde é que quer ir no verão.

Mas eu devia ter adivinhado que isto me ia acontecer, devia ter-me lembrado do ano passado e da forma completamente idiota como me trataste, mas o amor é a coisa mais estúpida do mundo porque rouba à memória as coisas más e só ficam lá as melhores noites de sexo, os presentes amorosos, o primeiro beijo, as palavras mais belas e menos verdadeiras que os amantes trocam quando são apanhados na bebedeira da paixão. É tudo lindo, azul forte, amarelo canário, cor de rosa choque, verde alface, o mundo satura-se de cores, cheiros e felicidade, até ao dia em que tu acordas e te piras para o Algarve. Como há um ano.

Só que este ano, nem sequer avisaste. Liguei-te na sexta a seguir ao almoço e já ias a caminho com o Ivo, os dois de descapotável, armados em meninos betos a passar a Marateca, prontos para três semanas de anestesia em directas, pastilhas, cerveja, MDMA caso apareça algum artista que o arranje, mulas de todas as nacionalidades, pitas inexperientes e trintonas ávidas, loucura e festa três semanas seguida e eu aqui a bulir até o teu regresso.

Quando te perguntei porque raio nem sequer me tinhas convidado, explicaste-me que em casa da avó do Ivo só havia 4 camas e que já estavam todas ocupadas com os teus amigos e quando te disse que não passavas de um filha da puta cobarde e infantil, pediste-me um tempo, mas tempos dão-se no futebol e é por isso que há mais de três dias que não te atendo o telefone, agora sou eu que te estou a dar tempo, tempo para pensares na merda que fizeste, tempo para te coçares de raiva, tempo para te queimares na fogueira que ateaste e à noite, em pesadelos povoados de gritos e facas, vejo-te a arder num fogueira, os teus olhos saltam das órbitas e voam no ar como bolas de malabarista, e eu bato palmas enquanto assisto de camarote à tua morte lenta e depois acordo encharcada para mais um dia de trabalho inútil porque não pertenço àquele escritório, não pertenço ao apartamento minúsculo onde vivo, não pertenço a nada, mas trabalho e luto e luto e trabalho para um dia não ter que trabalhar mais naquela empresa e poder sair daquele apartamento, ao contrário de ti, meu inútil de Nova Oeiras, que nunca hás de ser nada na vida.

E daqui a dez anos, quando eu andar de descapotável comprado com o meu dinheiro e também tiver amigas ricas e com avós com casa no Algarve, vou-te encontrar num bar qualquer, tu não me vais reconhecer, porque vou ser muito mais gira e alta e sofisticada do que sou agora e vou-te dar a maior tampa da tua vida. E então vais perceber que eu era a mulher que tu sempre quiseste, mas já vai ser demasiado tarde, porque tempos dão-se no futebol e é agora ou nunca que ficas comigo, e como "agora" não podes porque foste para o Algarve, guarda o "nunca" para sempre e faz bom proveito.

 

 

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À procura de Artur

06.11.14

Como sou uma rapariga normal, hoje saí de casa e apeteceu-me comprar um peixe. Chamem-lhe capricho, mas de repente, achei que um ser vivo e cor de laranja na sala podia emprestar alguma expressividade à minha existência, distraindo-me com a sua silenciosa e incasável expressão corporal, enquanto aqui estou agarrada ao computador a programar sites de clientes do outro lado do mundo para Oeste com fornecedores do outro lado do mundo para Este.

Como são muitas horas de trabalho a contar com o desfuso horário entre Portugal, a Califórnia e a Índia, não posso ter um cão que é preciso levar a passear à rua três a quatro vezes ao dia, nem um gato, porque esses idiotas pensam sempre que são mais inteligentes do que nós, mas trabalhar para pagar as Whiscas é que está quieto ó preto, neste caso, está quieto ó gato.

Do que eu precisava era de um bicho pacato, que fosse barato e desse pouco trabalho. Com quem eu pudesse desabafar as minhas mágoas e me olhasse com complacência e solidariedade, sem no entanto precisar de pronunciar uma única palavra. Que me desse cor e movimento à vida e até, quem sabe, algum conforto, mas não deixasse a tampa da retrete para cima, pêlos da barba no lavatório e meias sujas enroladas como bichos de conta num momento de inspiração anárquica aos pés da cama.

É isto que algumas raparigas normais sonham quando idealizam um modelo perfeito de namorado. Eu contento-me com um peixe e considero-me uma rapariga cheia de sorte porque, como já não tenho namorado, posso sair à rua para coisas tão prosaicas como comprar um peixe a quem chamei de Artur, porque era o nome do meu namorado, antes dele ter decidido ir viver para outro lado mundo, muito mais longe do que a índia ou a Califórnia, à procura dele próprio, que é o que fazem os homens quando não querem crescer nem assumir responsabilidades.

Se calhar também me deu para comprar o peixe, porque na Nova Zelândia, que é onde ele está, há imensos peixes de imensas cores e ao menos assim é como se tivesse o Artur por perto, a rir-se para mim e a encolher os ombros de vergonha quando eu reclamava os pêlos da barba e o tampo da retrete deixado descaradamente para cima. A verdade é que me armei em forte quando ele se foi embora, mas aqui fechada todos os dias a olhar para o outro Artur, só me apetece cruzar os oceanos como o pai do Nemo e ir à procura do único rapaz de quem gostei, porque afinal o que é a vida sem amor, senão uma existência vazia e adiada, estéril e sem sentido?

Está bem, uma pessoa trabalha, ganha dinheiro, vai ao cinema e tem amigos, leva a avó a comer ducheses na pastelaria da esquina, bebe copos e dança até às sete da manhã, troca emílios e mensagens escritas no lindo visor do nosso melhor amigo que em vez de ladrar e ter orelhas compridas, canta excertos de peças clássicas e tem cara de extra-terrestre – isto é se um telemóvel pode ter cara de alguma coisa – faz ginástica, muda os móveis em casa, compra peças de roupa fantásticas nos saldos da Fashion Clinic, mas sem amor, sem esse fogo que arde sem se ver, sem essa ferida que dói e não se sente, que sabor tem a vida além do papel de jornal que se lê todas as manhãs para se fingir que até nos interessamos pelo que se passa no mundo?

Desatino é mesmo não sentir o poder do amor. Achem-me romântica, exagerada, adolescente tardia, infantil, o que quiserem, mas desde que o Artur se foi embora que a casa perdeu a cor, a tinta caiu das paredes e nem o outro Artur me consegue animar. Vou mas é aos leilões das companhias aéreas da net e cruzar os céus para resgatar o homem da minha vida, que, se a providência assim o quiser, não há de estar preso no aquário de um dentista como o Nemo, e pelo caminho mando à fava os clientes americanos da Califórnia com um Volto Já pespegado num emílio, até encontrar o meu príncipe encantado que deixava pêlos da barba no lavatório e as meias enroladas como bichos de conta ao pés da cama, mas que nenhum peixe pode substituir.

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A Maior Aventura

06.11.14

É ao fim da tarde quando te vou buscar que o dia recomeça numa nova e particular existência abençoada pelo teu sorriso iluminado a azul quando atravessas o recreio e vens directo a mim como uma seta ensinada pelo coração. Às vezes demoro-me a distinguir-te no meio das outras crianças, mas o teu corpo alto e a tua cabeça redonda como uma bola perfeita destacam-se por entre os bibes azuis e logo te encontro, os joelhos esfolados e as mãos encardidas, a cara ofegante e esse sorriso que só se tem aos 5 anos, ou muito de vez em quando, quando o amor transforma a paixão numa doce existência a dois.

Sempre te vi na minha imaginação ou no meu coração – e não serão uma e a mesma coisa? – doce e bonito, metade anjo metade príncipe, com o olhar celestial dos meninos bem comportados. Se calhar foi por isso que quando os enjoos matinais me decifraram o futuro, percebi logo que ias ser um rapaz e desatei a comprar jardineiras e ténis azuis, adivinhando sem saber o teu sexo e cor dos olhos que me guia para casa, todos os dias ao fim da tarde pela estrada fora. Juntos cantamos músicas da Disney, tu gostas do Rei Leão e eu da Bela e o Monstro, ambos concordamos que a Mulan foi uma menina muito corajosa e que a Esmeralda até era boa rapariga e eu explico-te a metáfora do Corcunda de Notre Dame para que aprendas a ver a beleza em todas as pessoas. Há dias em que quase não falamos, eu vou a pensar na vida e tu no Game Boy que te espera em casa, outras vezes explico-te porque é que vim mais cedo ou mais tarde e tu percebes tudo porque és meu filho e gostas de mim.

Gosto de encostar a minha mão de mãe à tua testa lisinha e mole, gosto de ouvir a tua voz de menino a dizer-me A Mãe sabe que eu gosto muito da

Mãe? ao mesmo tempo que semicerras os olhos e mais uma vez o teu sorriso ilumina o mundo.

Sabes, meu filho, é que antes de tu nasceres eu era só mais uma pessoa avulso, tinha muitas ideias mas pouca força, alguns sonhos e muitos disparates na cabeça, sensatez e ponderação era palavras complicadas e opacas cujo significado não me apetecia ir ver ao dicionário. Depois tu chegaste, um bocadinho de gente num choro mimado e foi assim que começou a maior aventura da minha vida.

Às vezes o cansaço toma-me os braços e a cabeça, ralho contigo e zango-me se trocas os talheres à mesa ou dizes asneiras, mas é à noite quando te adormeço na penumbra do teu quarto forrado a sonhos e ursos simpáticos, que

me alimento do teu ar quando mergulhas no sono tranquilo e seguro. Fecho os olhos para te ver melhor, qualquer dia tens 18 anos e uma colecção de namoradas giras e simpáticas com quem vais comer gelados e trocar discos, mas quando fores pai, ou crescido, ou te formares, ou aceitares o teu primeiro emprego, vou-me sempre lembrar do bocadinho de gente que eras, do choro mimado antes de te pôr ao peito, dos joelhos esfolados e da tua voz aos 5 anos a dizer a Mãe sabe que eu gosto muito da Mãe?

É que a memória é o nosso melhor património e é por causa de ti que o meu coração é como o universo, está sempre a crescer e nem eu nem ninguém sabe onde vai parar.

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A Caixa de Pandora

06.11.14

Às vezes acho que são as palavras que se viram contra mim, exactamente nos momentos cruciais, aqueles em que elas, as palavras, me poderiam valer. Talvez as use com excessiva facilidade e as gaste com toda a minha pretensa eloquência. Ou talvez elas não representem quase nada, nem sequer o significado que lhes damos. O que contam são os actos, esses sim, falam mais alto. E o que nunca se ousou dizer, o que se guarda no peito durante dias, semanas ou anos como um tesouro precioso e clandestino que perde o encanto e o valor se for revelado ou descoberto.

Mas é mais forte do que eu. Há anos que me sento em frente a um ecrã branco e o encho com caracteres pretos, criando a ilusão que desta forma encho os meus dias e dou uma ajuda a mais algumas pessoas, os meus leitores, que encontram naquilo que lhes escrevo, respostas e soluções para tristezas e enigmas que o meu conhecimento não alcança.

O meu apego às palavras é tão grande que são elas o princípio, o meio e fim da minha existência, a única forma que alcanço para me relacionar com os outros e com o mundo. E também comigo, quando falo sozinha com os meus botões e procuro respostas e explicações para tudo.

E depois, depois há as palavras dos outros. De todos os escritores cujos livros conversam na minha casa, que vou descobrindo nas minhas viagens ou recebendo através de amigos generosos, histórias perfeitas e parágrafos sublimes que vou coleccionado como o prazer e a culpa de quem se apropria de tesouros alheios. E quando as palavras que os outros escrevem dizem o que sinto, sinto-as como minhas e registo-as num caderno, no telemóvel, num guardanapo de papel, para mais tarde as oferecer a alguém.

Citações, aforismos, diálogos, monólogos, descrições de um personagem, de uma casa, de um lugar. Frases soltas, reflexões, princípios filosóficos, abreviaturas, nomes, alcunhas, diminutivos, expressões idiomáticas, provérbios e ditado populares, tudo serve para me entender melhor com a realidade, penso eu.

Mas talvez não seja assim. Talvez tenha escolhido o caminho oposto para alcançar o entendimento. Quanto mais penso, me organizo e me respondo, mais dúvidas tenho e menos satisfeita me sinto. A pouco e pouco comecei a perceber que nunca há respostas para tudo. E as poucas que existem, ou são erradas, ou são absurdas.

E é então que baixo os braço, entrego as armas e desisto a favor do silêncio, que é tudo o que me resta. Mas silêncio nunca traz respostas. Instala-se como um tirano que ocupa todas as casas e jardins do mundo, que manda prender e torturar todos os que falam, que se esconde atrás da indiferença, do desinteresse, do vazio, da distância, tentando convencer-me que é melhor assim, como se as palavras vivessem todas na caixa de Pandora e fosse um crime para a humanidade abri-la e deixá-la respirar.

Um dia destes faço um furo na caixa, daqueles quase invisíveis, tipo formiga branca e começo a ver as palavras a sair numa coluna de fumo, uma a uma, quase sem se dar por isso. Pode ser que então saiam as palavras certas, poucas, sempre poucas, as suficientes para te fazer voltar ao mundo em que éramos quase sempre felizes, com ou sem elas.

 

 

 

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